Alforria

Por: Hélio França

Nem mosca zumbindo, nada. Silêncio quase total, não fosse o gotejar teimoso vindo do banheiro. De quando em quando, parecia ouvir uma aceleração nos intervalos dos ruídos dos pingos caindo ao chão. Talvez tivesse esquecido a torneira ligeiramente aberta. Ultimamente sua cabeça andava meio no ‘vai da valsa”, ora pensando em quase nada, ora em nada mais...

Tanto que os últimos dias tornaram a povoar sua mente de lembranças dos acontecimentos passados nos braços rústicos daquele crioulo úmido, cuja disposição beirava à de um motor V-8. Tinha sido o bastante para Ruth descobrir que seu corpo não obedecera aos comandos do pensamento, tremulando involuntariamente em cada centímetro de carne, pele, ossos e terminações nervosas. A boca, os lábios totalmente desarticulados gritaram todos os silêncios guardados nas outras tantas noites óbvias, de um sexo recatado, sob lençóis cúmplices e indiferentes de um casamento formal. Guardara a viuvez por longos quatro anos. Agora estava ali, a casa toda sua, tão sua quanto vazia, o filho único já formado mudara para outra cidade. Perguntava ao presente que vida lhe restava e a resposta obtida vinha dos recônditos do seu corpo, com o pulsar do sangue mais forte do que nunca, em mares e lugares nunca dantes navegados...

Uma noite qualquer, dois meses passados, o verão pedira um banho rápido. Girou a mão para abrir, um estalo, a torneira quebrada. O vazamento forte no registro do chuveiro fê-la buscar na lista telefônica alguém que estancasse a molhaceira, um encanador, claro.

Claro? Hora e meia depois, abriu a porta e deparou-se com um sorriso branco dentro de quase dois metros de altura, a noite estampada num peito largo que a camisa entreaberta expunha ao mais tímido olhar. Apenas um boa noite seco, bem mais seco que aquela água toda a jorrar no banheiro, foi o cumprimento do homem, através da voz grave, gutural. Em segundos lá estava ele, as ferramentas espalhadas pelo chão do box. Pediu ajuda para que ela segurasse a torneira do registro enquanto o desenroscava com a chave de cano. A água foi espirrando em todos os sentidos qual uma biruta hídrica enlouquecida. As roupas molhadas, grudando na pele, tomando formas humanas, realçando curvas femininas e contornos hercúleos masculinos, braços, pernas, nádegas, definindo saliências...

A água fria não causou efeito gélido na pele, o calor vindo das entranhas era mais forte, mais intenso, voluptuoso como o crioulo, cujo corpo emitia um odor de corcel selvagem molhado de suor.

O piso àquela altura encharcado e escorregadio a teria trazido, ao sabor da queda, em direção ao solo duro, não fosse o rápido enlace de um gancho negro, firme, envolvendo sua cintura.

Sentiu o abraço involuntário, salvador, a mão enorme aparando a fragilidade do corpo e da alma. Quatro anos pálidos de desejo... Pareceram-lhe uma eternidade os segundos, retida naqueles braços, seus olhos denunciando entrega, a alma pronunciando liberdade, a água lavando o passado, quatro anos, quatro minutos, o corpo fremindo sob explosões vulcânicas e desconexas, repleto, invertebrado, subtraído de ausências!

Agora estava outra vez ali, só, a casa toda sua, o silêncio também, o ruído dos pingos no piso do box revelavam um conserto que fora feito às pressas. Caminhou até o chuveiro, girou a torneira e, vestida de ilusões, entregou o corpo nu ao calor das águas...

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