Philip Roth e O professor do desejo

Por: Sônia Machiavelli

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Traduzido por Jorio Dauster o romance O professor do desejo, de Philip Roth, já está à disposição do leitor de língua portuguesa. A responsabilidade é da Companhia das Letras, que reedita a obra lançada aqui em 1977, sob crivo da Círculo do Livro e tradução de Mendonça Taylor. A crítica especializada elogia Dauster que soube captar certas sutilezas autorais, traduzindo por uma onomatopeia (nhac-nhac) o ruído de mascar chiclete, em lugar do substantivo “ganidos”, usado por Taylor, por exemplo. Roth disse recentemente que se aposentou, não mais escreverá, esgotou seu repertório sobre gentes e coisas. A declaração está fomentando reedições em muitos países.

David Kepesh, protagonista de O professor do desejo, escrito há mais de três décadas, já havia dado o ar de sua graça anteriormente, no conto O Seio, onde muitos viram um pastiche da metamorfose kafkaniana: como ocorreu a Gregor Samsa, que se transformou num inseto gigantesco, em processo de mutação Kepesh vira um fornido seio. Vinte e quatro anos depois de O professor do desejo viria a público Animal Agonizante, com o mesmo Kepesh. Como se pode ver, há personagens que não abandonam facilmente seus criadores. Também é o caso do psicanalista Dr. Klinger e do casal Schombrunn que aparecem no primeiro e segundo livros. Mas a trilogia Kepesh é finita, o autor avisou em 2001, ao lançar a terceira história.

A prosa deste escritor lido por milhões impressiona. Ritmo ágil, diálogos que imitam a linguagem oral, maneira de adentrar o conflito como quem vai das margens de um lago para seus crescentes níveis de profundidade e, claro, um conhecimento extenso das fragilidades e incoerências humanas. Entre suas características, destaque-se também homenagem que presta a seus ficcionistas de eleição. No caso do romance em foco, o já referido Kafka, Lord Byron, Flaubert, Tostoi, Tchekov,Thomas Mann e a tão esquecida Colette. A respeito desta, diz o protagonista ecoando a voz do autor: “Tenho me perguntado se existiu nos Estados Unidos algum romancista com uma percepção do que significa receber prazer minimamente parecida com a dela; um escritor, homem ou mulher, tão profundamente movido quanto ela pelos aromas, pelas sensações térmicas e pelas cores, alguém tão compreensivo com respeito à gama de exigências do corpo (...)”

Sobre a busca destes prazeres e a culpa que advém dela e deles, sustenta-se grande parte do romance em destaque. Narrada em primeira pessoa, a história mostra o protagonista da infância à vida adulta, no seu país de origem, os EUA, ou em viagem ao Exterior, em excursões ao redor de si ou em incursões íntimas, sempre à procura da satisfação de seu desejo sexual, o que o leva a um ‘menage à trois’, depois a um casamento que começa de forma magnífica e se desfaz fragorosamente, em seguida a um relacionamento que parece perfeito mas está prestes a se desintegrar. Dos primeiros anos passados no hotel da família judia, o Hungarian Royale, transitando pela vida universitária com direito a bolsa na Inglaterra, e, depois, pela vida acadêmica, onde faz carreira brilhante como professor de literatura, o que vemos é a tentativa constante do personagem de “experimentar novas formas de estar no mundo” pelas vias de uma libido que , reconhecida como aquilo que o ser humano tem de mais elementar, fica subordinada, em diferentes e complexos níveis, às convenções sociais.

A culpa e o sentimento de inadequação, típicos também dos personagens de Kafka, levam Kepesh a uma série de desilusões amorosas para as quais parece não haver remédio e o colocam, não raro, em depressão. Numa dessas crises, em processo de recuperação, escreve um livro metaforicamente chamado Homem numa concha. É um estudo da obra de Tchekov, mais especificamente sobre o ceticismo do ficcionista russo em relação às paixões humanas. No desfecho da narrativa que tem Kepesh como protagonista, Roth faz sua criatura replicar na prática esta condenação, a de buscar algo inalcançável, tendo a ilusão de consegui-lo para em seguida decepcionar-se, como num horrível círculo vicioso: “ Ah, minha amada inocente (...) dentro de um ano minha paixão estará morta. Já está morrendo, e temo que não haja nada que eu possa fazer para salvá-la(...)

Pessimista? Muito. Realista? Também. Sobre o livro, o escritor André de Leones, em resenha crítica para o caderno Sabático, de O Estado de São Paulo, comenta em tecla parecida que “o maior problema de David Kepesh é que ele simplesmente não sabe o que fazer de si e, por decorrência, dos outros. Ele está sozinho como o restante de nós.”

GRANDE LEGADO

Philip Roth

Ele é considerado um dos maiores escritores norte-americanos da segunda metade do século XX . Tornou-se conhecido sobretudo pelos romances, embora também tenha escrito contos e ensaios.

Entre as suas obras mais destacadas encontra-se a coleção de contos Goodbye, Columbus (1959), a novela O complexo de Portnoy (1969), e a sua trilogia americana, publicada na década de 1990, composta pelas novelas Pastoral Americana (1997), Casei com um comunista (1998) e A mancha humana (2000), que ganhou a telona com o título Revelações, filme aqui comentado no último janeiro.

Muitas das obras de Roth refletem os problemas de assimilação e identidade dos judeus dos Estados Unidos, o que o vincula a outros autores norte-americanos como Saul Bellow e Bernard Malamud.

Grande parte da obra de Roth explora a natureza do desejo e o autoconhecimento, caso do livro resenhado ao lado. A marca registrada da sua ficção é o monólogo interior, de tintas um tanto irônicas, misturadas a humor inteligente e certa energia meio histriônica, por vezes associada com as figuras do herói e narrador. É o que acontece em O complexo de Portnoy, a obra que o tornou popular.

Recebeu o Prêmio Pulitzer, na categoria de ficção, por Pastoral Americana, e o International Man Booker em 2011. Tornou-se o único escritor americano a ter suas obras completas publicadas em vida pela Library of America , que tem como missão editorial preservar as obras consideradas parte da herança cultural americana.

Serviço
Título: O Professor do Desejo
Autor: Philip Roth
Tradução: Jorio Dauster
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 256
Preço: R$39,50

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