O homúnculo

Por: Everton de Paula

201601

Já faz alguns anos. Trazia um mapa grotescamente desenhado a mão. Indicava a localização do rancho de um amigo que, por tanto insistir, eu acabara cedendo e resolvera participar de um churrasco entre amigos. Rancho e churrasco, como os evitei!

De carro, sozinho, tomei uma das saídas da cidade. Após alguns quilômetros de asfalto, consultei o mapa e virei à direita. Encontrava-me numa estrada de terra, dessas vicinais, interligando fazendas e sítios. Um caminhãozinho de leite vinha em sentido contrário. Aí, as estranhas gentilezas entre dois motoristas desconhecidos começaram: joguei meu carro para perto do barranco, o outro lá fez manobras mirabolantes na direção, em busca de um espaço por onde pudesse continuar seu caminho; passamos rentes um ao outro, a ponto de ver-lhe o rosto queimado de sol, a barba espinhenta, o dente que lhe faltava, a camisa suada, o chapéu , como um trapo de palha, empurrado para a nuca. Mas o sorriso e a buzina farta: “Vai com Deus, doutor!”

Sigo. Terra, mato, poeira, sol, mata-burro pouco confiável... Uma cancela de pau de eucalipto e arame farpado obrigou-me a apear para abri-la, transpô-la, voltar e fechar, enquanto a poeira vermelha envolvia-me o corpo. E, é claro, a encruzilhada que não estava no mapa. Não poderia estar no mapa. Mas era manhã, manhã de maio, luz clara das oito horas. Se errasse, algo iria me indicar o erro, como o tempo decorrido, por exemplo... Então, voltaria. Optei pela direita. Embarafustei-me mata adentro. A estrada ia ficando mais estreita e, notava-se, pouco usada. É claro, errara o caminho. Não saberia explicar por que então ia me metendo à frente. Descida íngreme. Coqueiros vergados. Jequitibás oitentões. Um bambual denso e extenso de ambas as margens cruzavam-se por sobre a estrada... E o céu sumiu! O declive em serrote terminava num riachozinho raso. O frescor de maio, o semi-escuro da mata cerrada, o chiado aspérrimo das folhas esfregando-se umas às outras, o bem-te-vi invisível insistindo em me avisar “não-é-por
-aí!”, “não-é-por-aí!”... Parecia ter entrado numa página de Rosa, exatamente naquele momento em que tudo fica úmido, silencioso e escuro. Prenúncio do aziago iminente. Era certo... Estava perdido e cercado de elementos estranhos.

Delicadamente, os pneus do carro atravessaram o riachozinho e deram início à subida íngreme. Lá em cima, no topo, o bambual cruzado abria-se como num buraco de túnel. A claridade do dia entrava por aquele buraco... E era só o que via. O motor do carro afogara. Tornei a descer e pisar na terra úmida. O bem-te-vi silenciou de vez e as folhas emudeceram. Caminhei, com o corpo curvado, alguns metros ribanceira acima à busca de luz. Precisava de luz, de céu, de campo aberto, de visão larga, , de planitude, de chão firme... Subi mais alguns metros.

De tudo, era o silêncio que mais incomodava. Súbito, um longínquo, leve e cadenciado trotear solitário rompeu o estado de coisas. Pus-me atento.

Lá em cima, na boca do túnel, um cavalo baio. Montado sobre ele, curvado, um estranho cavaleiro. O relincho denunciou minha presença. Os dois imobilizaram-se. Olharam para cá embaixo. Deviam me ver com nitidez, já que a entrada de luz era favorável à visão de quem lhe dava as costas. Eu, contra ela, apenas divisava a figura disforme do cavalo e seu montador curvado.

Aconteceu o que não queria.

Com um sutil comando de pés descalços e mãos tortas, o animal começou a mover-se em direção a mim. À medida que se aproximava, a imagem borrada pela luz tornava-se nítida. Cada vez mais. Desviei o olhar do cavalo e fixei-o no cavaleiro. Este horrorizava. Não estava curvado sobre a montaria. Estava em seu posar natural era corcunda. A protuberância lombar assemelhava-se a um corpo estranho, volumoso, que teimava em sair daquele corpo pelas costas, tornando a criatura figura ímpar de monstro apequenado.

Aproximou-se ainda mais. Era um homem... Ou uma criança? O tamanho diminuto do seu todo, à média distância, confundia-me no tentar adivinhar-lhe a idade. O cabelo comprido escorria-lhe pelos ombros. Firmei a vista; a cabeça nascia-lhe já do tronco, de forma a não configurar simetricamente o pescoço. Havia na figura algo de truanesco, de bufão, aqueles anões das cortes medievais, o palhaço dos castelos. Braços curtos, mãos pequenas e enrugadas seguravam com firmeza as rédeas do outro animal, que lhe obedecia com docilidade. Estancara ao meu lado. Senti o hálito quente do cavalo inundar meu rosto.

Agora conseguia notar a criatura em seus detalhes. Trajava um pano imundo que lhe cobria desajeitadamente o tronco entortado. Uma espécie de calção de brim azul servia-lhe de calças curtas, que iam até abaixo do joelho. Voltei o olhar para sua face. Seus olhos avermelhados procuravam os meus. As rugas na fronte e nos cantos da boca enganavam à primeira vista. Não era um homem feito; parecia uma criança precocemente envelhecida.

O pequeno corcunda alevantou a cabeça e buscou o impossível aprumar seu próprio tronco. Baixou o olhar sobre mim e, por um brevíssimo instante, senti-me inferior, como a desculpar-me por trazer minha alma encarcerada num corpo perfeito. Mas ele entendeu, acho. Olhou-me fixamente e, para meu assombro, sorriu. Não um sorriso maldoso, que fizesse assustar o incauto viajante que por ali passasse. Apenas sorriu. Mostrou-se senhor da situação, em seu elemento natural. Como por osmose, integrava-se à paisagem. Ele era parte da natureza. A protuberância deforme nas costas era apenas mais um galho destorcido de árvore. Seus braços e pernas eram ramos, galhos. Seu respirar curto e ruidoso era o contracanto do bem-te-vi. Seu sorriso era um sinal que não consegui decifrar. Aquele encontro inusitado começava a embaralhar meu tino.

O homem ou a criança puxou um canto dos lábios, estalou a língua e, prontamente, o cavalo voltou-se e subiu a rampa. Sumiram na claridade do dia.

Talvez tenha permanecido ali, parado, por algum tempo. Não me lembro. Apenas sei que um amontoado de idéias veio-me ao espírito.

Para meu espanto, constatei pelo relógio que o encontro não durara nem um minuto. E parecia ter durado uma eternidade.

Voltei ao carro.

O motor pegou.

Tomei o sentido contrário.

Achei o caminho certo.

Cheguei ao rancho de meu amigo.

Não narrei o sucedido.

A carne estava saborosa até o ponto em que me disseram que era cupim. Desgostei e entramos tarde adentro.

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