Música, cimento, tijolo...

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Foi no belo Mato Grosso
Há muitos anos atrás
Naqueles tempos queridos
Que não voltam nunca mais...

 

O radinho, amarrado a um prego, esparge, na parede e na construção toda, as vozes de Belmonte e Amaraí. Há muito, a morte já desfez a dupla, mas ela ainda traz até à betoneira, até os montes de pedra e areia, até os sacos de cimento e cal, lembranças de pés de cedro e de figueiras e de paineiras gigantes. As vozes, esculpidas em vinil, sopram cinzas, avivando amores que ficaram plantados em distantes terras, mas cujas sombras mansas ainda abrigam.

De repente, escuridão se faz na vida do servente Binga. Tudo se apaga de chofre. Tudo porque um simples tijolo, dos muitos que ele faz voar até o andaime, escorrega das mãos do Zé Fumaça, faz rápida viagem de volta, pousa na testa do servente. Recupera a consciência dentro do automóvel do chefe de obras, a caminho do pronto-socorro.

Lá, depois de esperar pelo menos duas horas, é atendido pelo plantonista.

- Acidente à toa, nada de grave. O sangue já coagulou no couro cabeludo, não vai precisar nem dar ponto. Basta tomar um comprimido para a dor.

- Mas, doutor... eu só estou vendo fumaça na minha frente... não estou vendo mais nada.

- Isso é assim mesmo. Amanhã você estará pronto pra outra.

Na manhã seguinte, de volta ao pronto-socorro, o servente Binga espera um tempão, até que chega sua vez. Pergunta para a atendente:

- A senhora tá lembrada de mim?

- Não. Qual é o seu caso?

- Eu tive aqui ontem... caiu um tijolo na minha cabeça. É que eu não estou enxergando nada.

- Ah, aqui é só urgência. E aqui não tem oftalmo não. Oftalmologista só nas unidades.

Coitada da atendente. Custa muito até o servente Binga entender que deve procurar uma unidade básica de saúde a mais perto de sua casa.

Passeia muito de ônibus até chegar ao terminal, especula muito, embarca no ônibus, passeia mais meia hora. Desce no ponto certo, anda um pouco, entra na unidade de saúde, explica sua via-sacra, explica que não está enxergando quase nada.

- Ah, o senhor tem que voltar na quinta-feira. Só na quinta é que marca consulta.

- Mas eu preciso de um atestado médico, senão eu perco os dias de serviço.

-Ah, isso é só com o médico. O senhor volta na quinta-feira.

Volta na quinta-feira, agüenta fila cumprida. Tenta sorrir para a atendente.

- Lembra de mim?

- Não.

- Eu estive aqui, falei pra senhora que eu tinha sofrido acidente. Eu sou servente de pedreiro.

- Se for urgência não é aqui. O senhor tem que ir no pronto-socorro.

- Eu já fui... Mandaram eu passar aqui, procurar um médico de vista... Eu não estou enxergando quase nada.

- Eu vou marcar sua consulta, mas vai demorar. Médico oftalmologista é só uma vez por mês.

- Mas eu preciso consultar... Eu preciso de um atestado falando que eu não posso trabalhar... Eu não estou enxergando direito...

- Isso é só com o médico. O senhor explica pra ele no dia da consulta.

O servente Bingo chega em casa, mostra o encaminhamento pra mulher, explica:

- Olha aí. O médico vai me atender só daqui a dezoito dias. Eu tenho que voltar pro serviço.

- Voltar como? Você não está enxergando nem o seu nariz.

- Mas se eu não for, perco o serviço. Ninguém quer me dar atestado...

Na madrugada seguinte, o servente Binga provoca confusão. Bate a bicicleta na traseira de ônibus parado no ponto. Fica estatelado no meio da rua por cerca de cinqüenta minutos, ate ser recolhido por ambulância, levado ao pronto-socorro. Sai todo enfaixado, com receita para comprar remédio. A mulher, alegre, mostra-lhe o atestado: clavícula quebrada dá direito a um mês de atestado.

Dezessete dias depois, chega de madrugada à unidade básica de saúde, fica frustrado: muitos o antecederam. Horas depois, é introduzido no pequeno consultório, explica para o homem de branco.

- Doutor, sofri acidente, só estou enxergando fumaça.

- - Então marca consulta para o mês que vem. Do jeito que você está, nem adianta examinar. Sua testa ainda está cheia de hematomas, o olho ainda está inchado. Volte daqui um mês.

- Mas, doutor...

- Não tem mais nem menos. Volte no mês que vem.

A moça atrás do balcão é inflexível:

- Marcar consulta só na quinta-feira.

Volta na quinta.

- Mas, dona...

- Só na quinta.

Volta para casa, andando devagar, trombando em pessoas, tropeçando em coisas. Mentalmente cantarola:

Hoje volto arrependido

Para o meu antigo lar

Abatido, comovido,

Com vontade de chorar...

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