A poética do vinho

Por: Maria Luiza Salomão

Conheci quatro ou cinco bodegas (onde se degusta e se aprende sobre a produção do vinho) na cidade de Mendoza, Argentina. Norton, considerada grande, produz 15 milhões de litros ao ano. A “mediana”, Luigi Bosca, única bodega mantida pela família há quase um século, com 2 milhões de litros/ano. Duas “bodegas-boutique”, produção pequena, voltada para o desenvolvimento de alta qualidade nos vinhos - Carina E (de um casal de franceses) e Achaval Ferrer (5 amigos unidos no risco de produzir um vinho Malbec de altíssima qualidade, em com sacrifício de 80 por cento, assim nos disseram, da produção da matéria prima). CARINA E leva o nome de uma constelação que surge em Mendoza no verão, e a finca (fazenda) é dividida em terrenos que levam nomes das constelações. Seu dono é aficionado em astronomia. A NORTON tem uma escultura-símbolo a unir o Céu a Terra, a serpente entre o Sol e uma flecha a furar o chão. Achaval Ferrer tem o brasão arquetípico de um vaso sem pés, hierático, cunhado em madeira, e foi aqui que vi a mais linda vista dos Andes, em contraste com os seus vinhedos em uma reta plana sem fim. Luigi Bosca esculpe o brasão da família Leoncio Arizu, casarão branco.

Rituais precedem a degustação, e a compreensão dos métodos usados na produção da bebida, cria confrarias, longas conversas sobre o paladar, subjetivo e objetivo, do universo em cor rubi-rosada-sépia-violeta.

A região desértica, de pedra e areia. Os índios, muito tempo atrás, engenhosamente, construíram canais a carrear a água que degela dos Andes, e que inda hoje irrigam os vinhedos, bosqueiam as ruas da cidade, as estradinhas a nos levar às bodegas e fincas. Corredores de sombras frescas dantes protegiam os caminhões carregados de uvas, agora protegem os passantes.

Os nomes dos vinhos são “increibles”. “Quimera” é o nome para um corte varietal da Achaval Ferrer, a busca constante do melhor dos melhores, do sonho que jamais se realizará (e por que deveria?).

Jovenzinhos transmitem os sonhos dos donos das fincas, encarnam a tradição, constroem a atmosfera de veneração, vestais iniciações no desfrute da mítica bebida. Os almuerzos nas bodegas são “Festas de Babette”, cinco pratos com vinhos casados (em Lagarde, portuguesa, e Belasco de Baquedamo, que tem uma porta maravilhosa, com assombrosa vista dos Andes, onde comemos como reis e rainhas). Nas mãos celestes de Babette, nos transfiguramos em olhares ternos, delicados gestos, silêncios expectantes, ouvidos anelados.

Esperamos e ouvimos, esforçamo-nos nas caminhadas pelos vinhedos, sentindo o olor de carvalho dos barris misturado ao de mosto, leque aromático, quedamos duvidosos como saber o vinho bom, maduro, belo? Uma senhorinha, bem passada dos 60 anos, me disse, em seu espanhol paraguaio necessito de piernas! Sorria feliz, grata às três pernas, seguindo a Via Crucis da produção do vinho, em doze quadros, recriada por um artista para a bodega Luigi Bosca.

Rosas vermelhas, brancas, defendem o vinhedo das pragas. Atraem os insetos para que as uvas sobrevivam. Quem diria que, pintadas e cantadas como frágeis criaturas, teriam tamanho poder? Algo, nessa bebida, cria paixões, e nos faz transitar da sensação física crua à sublime lembrança do fugaz e transitório. A moldura dos Andes, imponente monumento, maciça mente, nos lembra o que belamente finca no coração, e jamais passará.

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