Possibilidades

Por: Eny Miranda

“Eu acho que quando não escrevo estou morta”, disse Clarice Lispector em entrevista concedida ao jornalista Julio Lerner. Mas a mesma Clarice, logo depois, observa que essa morte é necessária “para haver uma espécie de esvaziamento da cabeça, para poder nascer uma outra coisa”. E conclui: “Se nascer. É tudo tão incerto...”

É muito frágil a linha que separa o silêncio da morte do silêncio da criação; frágil o horizonte que equilibra escuridão e luz. Silenciamos na presença da poesia que se perde à sombra do verbo ausente; silenciamos na presença da beleza quase insuportável de um sanguíneo fim de tarde a se abrir - quem sabe? - à palavra perdida. “É tudo tão incerto...”

Porque, no silêncio da morte, parece perder-se o caminho do verso, o rumo do azul desenhado em curvas e retas, aberto em letras, desvelado na fala, na folha, no ar; perderem-se os sonhos, perder-se o contato com a epifania ou lograr-se o seu restabelecimento, se houver, já que “é tudo tão incerto...”

É tão forte a incerteza da morte e da vida, com essa rosa rubra no peito a repletar-se e escoar-se, continuamente, parecendo sorrire deixar de sorrir, como o cego parado no ponto, naquele conto de Clarice. O cego plantado no Amor, capaz de trazer um tsunami à calmaria da vida.

É possível que se abram claros caminhos, possível que se plantem sementes e cresçam árvores, no agônico silêncio da morte. É possível também que, plantadas, nascidas e crescidas, “as árvores [se tornem] tão carregadas, e o mundo [fique] tão rico que [apodreça]”. E que só rebrote quando se descubra, no escuro dessa morte, “uma vida silenciosa, lenta, insistente”, um trabalho secreto se fazendo; e quando a cegueira o torne doloroso, de tão vivo; opressivo, de tão palpitante. Porque nos caminhos em que alma e arte transitam, tudo é muito incerto, mas possível.

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