Acalanto

Por: Everton de Paula

Para minha netinha Ana Alice

Se esta rua, se esta
rua fosse minha...


Mas não é. Como não é meu o arco-íris, as estrelas, a claridade translúcida do luar. Como não é mais minha a felicidade que esbanjava na meninice: perdeu-se no fundo do quintal, virou o quarteirão, sumiu na torrente dos anos para dar lugar ao sorriso calculado. Não, esta rua não é minha porque são pobres os meus pertences. E por assim ser, não me sinto dono de preciosidades ou de ninharias que me dariam a voz de comando, o faça o que eu mando por conta e risco de minhas querenças. De nada sou dono; eis aqui apenas o meu eu na mais pura essência de seu interior, na vontade imensa de querer o seu bem; apenas isto. Durma, meu anjo, no embalo de meu acalanto, no sussurro do meu canto, na paz do meu amor...

Eu mandava, eu mandava ladrilhar...

E assim se faz o abismo entre intenção e gesto, sem que eu queira, é claro. Mas se eu pudesse falar, minha voz alcançaria a alma dos necessitados e lhes acalmaria as dores escondidas, o suficiente e necessário para o contentamento humano; se minhas mãos fossem hábeis, já que o coração é gentil, faria dessa rua a via mais preciosa para que seu caminhar fosse doce, flanando suave como só as aves pequeninas, no último vôo do crepúsculo à procura de abrigo. Mas o verbo é subjuntivo, a ação é vontade que tão somente expressa meu bem-querer do seu bem-estar. Creia: se pudesse, juro pelo sagrado, eu mandava ladrilhar...

Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante...

Fosse minha esta rua, cuidaria para que nenhum sobressalto visitasse seu coraçãozinho, para que sua vida fosse não um mar agitado de frágeis rosas, mas sim um manso lago de pérolas perenes que, ao longo do dia, refletissem em sua retina o milagre da luz, a festa das cores, os sorrisos e os amores que haveriam de ornar o seu ser, o seu estar, o seu viver, o seu amar...

Para o meu, para o meu amor passar!

Quão mágicas são as palavras provocam no pensamento a imagem ideal do nosso mais puro intento. Veja: a rua agora é minha! Vou ladrilhá-la de brilhantes! Rápido, antes que o momento se desmanche! Olha, cuidado, vejo você, meu anjo dourado, caminhando na rua radiosa de riqueza. Cuidado para que a imagem não se desfaça assim tão apressada. Aceite esses meus votos como se fossem pedaços de verdade. Fragilidade... E se me retiro a lento passo, é que me dou conta do que faço, fumaça que se esvai. Então, ao menos durma, meu anjo, no embalo de meu acalanto, no sussurro do meu canto, na paz do meu amor!

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