No tempo das diligências

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Existe um filme, estrelado por John Waine e dirigido por John Ford, que é considerado, ainda hoje, um clássico. Produzido em 1939, enfoca a colonização do oeste norte-americano. Este e demais filmes do gênero povoaram minha adolescência.

Neles e na leitura da coleção de J. Mallorqui - o Coiote - aprendi que, naqueles primórdios, a correspondência era levada de uma localidade a outra por meio de estafetas: cavaleiros que percorriam o país de um extremo a outro, com reduzidas paradas para troca de animais. O advento da diligência, com linhas regulares e horários não tanto, significou progresso, facilitando e acelerando a comunicação.

O telégrafo revolucionou ainda mais a comunicação da época.

O telefone foi um passo ainda maior mais adiante.

Mensageiro, diligência, telégrafo, num instante, viraram peças de museus que inventariam os voos do homem.

No momento, o celular disputa terreno com a internet, ambos destruindo a possibilidade de se convencer quem quer que seja de que o pombo-correio foi importante, teve muita utilidade.

Em síntese, a primeira década do século vinte e um já virou poeira levantada pelas rodas da carruagem-tempo. A Cibernética possibilita caudal de informações, em tempo real, colhidas em todas as curvas deste planeta, cada dia aparentemente menor.

E fico pasmo diante da velocidade com que o novo fica velho.

Espanta-me também, e muito, a desinformação de alguns neste momento da caminhada humana. O tempo das diligências já está longe e chega-me um envelope-carta. Examino-o. Numa face, em letras garrafais, ocupando a quase totalidade do papel, a palavra URGENTE se impõe e assusta. No canto inferior, em linguagem descuidada, a frase padronizada -”Prezado Senhor Sebastiana Gonçalves” - evidencia descaso. Em seguida, vem um endereço - o meu.

No verso, há o nome do remetente: firma concessionária, autorizada a conceder crédito consignado.

Entre espantado e triste, penso no atraso absurdo da correspondência: seis anos. É muito atraso, mas é isso mesmo. Dona Sebastiana morreu há seis anos.

Minha mãe viveu pobre por mais de noventa anos. Nunca ninguém lhe ofereceu um mísero empréstimo. Conseguiu alguma ajuda, eu o sei. Resumiu-se, todavia, a algumas moedas, algumas notas pequenas com que vizinhas bondosas a socorreram no seu desespero e na sua necessidade de aquisição de remédio para os filhos.

Depois de carpir a terra e ordenhar vacas por anos, aposentou-se por idade. A renda mensal assegurada não possibilitou, todavia, a aquisição de casa própria. Continuou vivendo a humilhação de morar e tratar-se das inúmeras moléstias à custa dos filhos. Nenhum banco, nenhuma representante bancária lhe atendeu os pedidos. Alegavam que ela não possuía bens para garantir empréstimos e não havia ainda essa máquina extraordinária de extorquir velhos incautos e desinformados chamada “empréstimo consignado”.

Como tudo tem seu lado positivo, bendigo o atraso. Minha mãe não precisa mais de “paraísos” ofertados a juros. Goza já das promessas todas do Cristo.

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