Baile Perfumado resgata Brasil profundo

Por: Sônia Machiavelli

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Em nosso país dedicamos pouca atenção ao restabelecimento de fatos que, mal contados, vão sendo permeados pelo mito ou simplesmente desaparecem antes que tenhamos nos dado conta de entendê-los em seus mais recônditos significados. Entre nós a inércia, o desinteresse e certa ignorância crônica a respeito da importância da memória que nos constitui como nação, representam impedimentos para um descortino que nos permita colocar luz sobre alguns fundamentos de nossa nacionalidade.

Mas algo vem mudando no âmbito do cinema e da literatura, artes que têm feito releituras importantes. O filme do cineasta Lírio Ferreira, Baile perfumado, marca o momento de retomada nesta trajetória que busca revelar um Brasil genuíno em suas peculiaridades. País de dimensões continentais, não pode se reduzir na telona à paisagem carioca, ao centro econômico paulista, à floresta amazônica, ao pantanal mato-grossense ou aos muitos quilômetros de praias paradisíacas. Somos muito mais que isso. Somos também, por exemplo, o sertão nordestino, com Lampião, Padre Cicero e o imigrante árabe que chegava do Velho Mundo com o sonho de fazer fortuna. É sobre eles que nos fala Baile Perfumado.

O filme, que tem como protagonista Benjamim Abrahão (Duda Mamberti), baseia-se em história real. Em 1915, aos 14 anos, oriundo da Síria, Abrahão desembarcou sozinho no Recife. Fazendo-se passar por jornalista, foi parar em Juazeiro do Norte, onde assessorou por quase vinte anos o padre Cícero Romão Batista (Joffre Soares), tornando-se seu secretário, amigo e confidente. Com a morte deste, em 1934, tenta ganhar dinheiro fotografando o famigerado Lampião (Luiz Carlos Vasconcellos) e o bando que aterrorizava vasta região do semi-árido. Contando com o beneplácito de ter servido a “Padim Ciço”, aproximou-se do chefe dos cangaceiros. Devoto do padre, mito ainda em vida, Lampião, a essa altura já celebridade, autorizou Abrahão a segui-lo por algumas semanas. Este faz então a série de imagens que mostram um heroi diferente daquele que habitava o imaginário popular. Homem vaidoso, exibicionista, gostava de se perfumar, cuidar dos cabelos, usar calçados de qualidade, dançar nos bailes organizados no meio da caatinga- daí o nome do filme. Maravilhava-se com a máquina fotográfica, a garrafa térmica e o cinema, essas modernidades de então. Inteligente e perspicaz, Abrahão carregava além das máquinas de fotografar e de filmar, uma caderneta onde anotava em árabe tudo o que lhe era dado observar. Encerrado o trabalho de campo e de posse do material, procurou jornais e revistas de circulação nacional que publicaram suas matérias. Isso foi sua glória e sua perdição. Porque a ditadura Vargas, que vinha caçando sem êxito Lampião pelos quatro cantos do Nordeste, sentiu-se afrontada com a exibição pública das fotos. O chefe de polícia Felinto Miller, de triste memória, mandou apreender tudo, filmes e fotos, sob alegação de que “atentavam contra os créditos da nacionalidade”. Abrahão morreu pouco depois, assassinado no sertão nordestino com 42 facadas, por pessoa que nunca foi identificada. O conjunto de documentos, considerado a mais completa iconografia da história do cangaço, só voltou a ser visto depois da morte de Getúlio, em agosto de 1954. Hoje se encontra na Cinemateca Brasileira.

Para fazer o filme Lírio Ferreira bebeu em fonte muito confiável: além do acervo da Cinemateca, encontrou subsídios no historiador recifense Frederico Pernambucano de Mello, 65 anos, que desde a década de 70 pesquisa a vida de Benjamim Abrahão (1901-1938), que era, sim, um aventureiro. Pra começo de conversa, a fim de conseguir empregar-se com Padre Cicero, mentiu-lhe, dizendo que havia nascido em Belém, terra natal de Jesus.

Fascinado por esta figura pouco conhecida, mas que emerge vívida e sedutora de documentos, fotos, filmes e diários, Mello dedicou anos à biografia do secretário do Padre Cícero e fotógrafo e cinegrafista de Lampião. O título do livro, que acaba de ser lançada, não poderia ser mais expressivo: Benjamim Abrahão - Entre Anjos e Cangaceiros.

Quanto a Baile Perfumado, voltou a ser motivo de comentários neste começo de ano por ter recebido elogios de outro cineasta nordestino, Kleber Mendonça Filho (diretor do recém-lançado O Som ao Redor), que credita a Lírio Ferreira o mérito de ter plantado a semente deste novo cinema brasileiro, desvinculado do esquema comercial que lota salas porque a produtora Globo detém o direito de distribuição. Apostando na qualidade e não na logística, Kleber e Lírio fazem filmes que falam de um Brasil profundo. Não assinam blockbusters, mas como ironiza Luiz Zanin Oricchio, “numa época de intolerância a qualquer manifestação de inteligência”, ser visto por 65 mil pessoas já representa um ganho.


CICLO DO NORDESTE

Lírio Ferreira

Lírio Ferreira nasceu em Recife em 1965. Apesar de graduado em jornalismo pela Universidade Federal de Pernambuco, começou a se interessar por cinema ainda na faculdade onde, com Paulo Caldas, fez os curtas Sístoles e Diástoles, Duoelo, O Bandido da Sétima Luz, e, com Cláudio Assis, Henrique. Dirigiu um programa na TV Pernambuco e alguns curtas experimentais em vídeo. Em 1992 lançou seu primeiro autoral chamado O crime da imagem, que acabou ganhando alguns prêmios. Em 1994 juntou-se a Amin Stepple Hiluey para o curta That’s lero-lero, premiado nos Festivais de Brasília e Gramado.

Em 1996 reintroduziu Pernambuco na geografia cinematográfica brasileira com Baile Perfumado, co-direção de Paulo Caldas. O filme ganhou o mundo mostrando a realidade do cangaço e se tornando um dos mais marcantes da chamada retomada do cinema brasileiro.

Depois de dirigir videoclipes musicais para inúmeros artistas nacionais como Otto, Chico Science e Nação Zumbi, Paralamas do Sucesso, Zé Ramalho, Adriana Calcanhoto e outros, fez o aclamado Árido Movie.

Junto com um assíduo colaborador de outros filmes, Hilton Lacerda, lançou em 2007 Cartola, Música para os Olhos, sobre o inesquecível compositor carioca. O filme foi o documentário mais visto no Brasil naquele ano. Dirigiu em 2008 outro do gênero, O homem que engarrafava nuvens, sobre Luiz Gonzaga, levando o baião para o exterior. Com ele foi premiado nos festivais de cinema de Los Angeles, Roma e Montevideo.

Em 2011, retornou ao universo ficcional com A espiritualidade e a sinuca, ainda em andamento.

Serviço
Título: Baile perfumado
Diretor: Lírio Ferreira
Gênero: documentário
Onde encontrar: nas locadoras

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