Clara

Por: Eny Miranda

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Acordou com a algazarra dos pássaros saídos de seus abrigos. Levantou-se e abriu a janela. Queria se deixar embeber de mais uma alvorada de abril. Deliciava-se com a alegre algaravia e com o perfume fresco vindos do jardim; com o aroma de café recém-coado e o som familiar do manuseio de louças e talheres que chegavam da cozinha, convidativos, e se somavam aos outros sinais matutinos.

Ah, os odores e as vibrações de um dia recém-nascido!

Conhecia muito bem cada fio daquele tecido vivo; cada som, em suas notas formadoras; cada cheiro, em suas unidades aromáticas... Seria capaz de identificá-los, um por um; desenredá-los, individualizá-los, intuir sua natureza e, depois, repô-los na trama primitiva: pássaro, pedra, pão, leite, água, árvore, folha, flor, fruto...

Além dos sons, odores e sabores, havia o palpável e suas superfícies. A polpa dos dedos podia perceber neles cada nuança de temperatura e de textura; depreender cada milímetro do que era tocado: curvas, ângulos, consistências; cada minúscula saliência ou reentrância; cada pelo, cada poro... E do conjunto das partes conceber o todo, em forma e substância.

Como amava esse exercício!

O mundo em que estava mergulhada não era, na sua opinião, tão obscuro quanto muitos o julgavam. Para ela, mostrava-se até bem previsível, dada a sua incomum sensibilidade.

Havia, contudo, um ou outro detalhe que a intrigava: o céu, por exemplo.

O que seria o céu, de que tantos falavam? O céu azul ou algodoado, cheio de flocos brancos flutuantes? Então o vazio em que o ar circulava era azul? E o céu dourado do pôr do sol, o céu cinzento dos dias chuvosos o que seriam?

O que seriam, afinal, o azul, o branco, o dourado, o cinzento?

Clara não podia sabê-lo, sequer imaginá-lo, porque nada disso tinha cheiro, nem sabor, nem formas palpáveis, e não emitia qualquer som audível.

Ouvia as pessoas dizerem os nomes das cores, mas não conseguia imaginá-las. “As cores dos objetos correspondem à radiação luminosa que refletem”, explicavam didáticas. “As cores são luz”.

A luz!

E o que seria a luz?

“O dia está luminoso, límpido”, ouvia muitas vezes.

“Límpido”, “luminoso”, palavras que certamente denotavam qualidades boas, ligadas a beleza ou a bem-estar, mas igualmente obscuras para ela.

Clara podia intuir o que é Beleza considerando a harmonia das formas, dos sons... Mas nada relativo a luz ou a cor. Céu, cor, luz e tudo o que a esses vocábulos estivesse ligado eram um grande mistério para ela.

Naquela manhã, porém, havia alguma coisa diferente no ar, ou na alma de Clara. Toda aquela atmosfera mágica em que estava mergulhada começou, aos poucos, a embebê-la, penetrando-lhe a pele, os olhos, os ouvidos, os ossos, as entranhas; misturando-se a ela, fazendo parte dela; sendo ela. Clara era a manhã de abril, com toda a sua luz, todas as suas formas e cores e odores e sons. Podia senti-los, íntimos, circulando em suas veias e artérias, acompanhando as batidas de seu coração...

Então, aos poucos, foram-se esgarçando os véus que encobriam aquele mistério incolor: o das cores.

Descobriu, surpresa, que as cores eram sonoras.

A cada uma correspondia uma nota da escala musical: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil, violeta, com suas diferentes frequências, suas gradações, seus bemóis e sustenidos, suas variações de altura, intensidade, timbre...

Podia encadeá-las em incontáveis melodias, ou usá-las aos pares, aos trios, aos quartetos...

O céu era, pois, um espaço cheio do ar que se respira; do azul, ouvido em Sol; da luz acordada em sete cores. O branco era um acorde luminoso. O branco era o dia. A tarde era um arpejo; o desdobramento do branco em arco-íris.

O mundo é uma sinfonia, deduziu. Só ela ouvia a grande obra musical que é o Universo. Só ela podia apreciar esse concerto. Só Clara sabia o som das cores.

O jardim era um coro de muitas vozes.

- Vejam estas pétalas! Que lindo tom, o deste ciclâmen!

E todos se admiravam da presteza com que Clara distinguia e nomeava cada nuança de cor.

Não precisava, como os outros, de espelho para ver-se: ouvia-se.

Descobriu que era, ela mesma, um conjunto de cores. Descobriu que era música. Na verdade, era o conjunto de todas as cores, que nela agora circulavam. Compreendeu que era parte do Universo, que nela habitava; que era um raio da luz visível.

Descobriu o porquê de ser Clara.

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