Forças Ocultas

Por: Chiachiri Filho

Jânio da Silva Quadros, ao renunciar à Presidência do Brasil, atribuiu o seu ato à existência das famosas “forças ocultas.” Na verdade, mais do que às “forças ocultas”, a sua renúncia deveu-se às suas “intenções ocultas” que, ao longo dos anos, tornaram-se cada vez mais claras e assustadoras.

A renúncia não é um comportamento habitual do político brasileiro. Muitos chegam a afirmar com ênfase:

— Morro, mas não renuncio.

Político brasileiro, salvo “ intenções ocultas”, só renuncia para escapar às garras da Justiça.

Bento XVI, ao deixar o Pontificado, surpreendeu o mundo com o seu gesto que, embora não fosse inédito na História da Igreja, não deixou de ser extraordinário. Ao renunciar, não alegou a pressão de “forças ocultas”. Ele foi muito claro. Fundamentou a sua decisão na debilidade física que estava exaurindo suas forças e impedindo-o de conduzir com segurança a barca de Pedro por águas revoltas e ventos contrários. Bento XVI foi além: denunciou a hipocrisia religiosa, a luta pelo poder, a feira das vaidades. Confesso que me assustei com as declarações do Papa e logo lembrei-me de um seu compatriota, o agostiniano Martinho Lutero, que, na Idade Moderna, revoltado com os rumos da Igreja, acabou provocando o grande Cisma dentro da Cristandade. Porém, Bento XVI apressou-se em eliminar qualquer suspeita ou pretensão de um novo Cisma. Ao sair, afirmou a sua fidelidade à Igreja e sua obediência irrestrita ao novo Papa.

As forças que motivaram a renúncia do Papa não são ocultas. Elas estão contidas num relatório de mais de 300 páginas que serão entregues ao próximo sucessor de São Pedro que, tão logo assumir o cargo, perceberá que não estará cercado só de anjos.

Sem dúvida, há algo de podre no reino do Vaticano e há de sair muita fumaça negra da chaminé da Capela Sistina.

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