O doce do capeta

Por: Paulo Rubens Gimenes

Viúva, onze filhos e mais um no bucho, vivendo num pedacinho de terra castigada no sertão da Bahia; mamãe tinha tudo pra descrer no Salvador, pelo contrário, era adventista e todos os domingos reunia a prole, eu mais meus irmãos, e seguia a pé pela estradinha até Piritiba onde, fervorosa, fechava os olhos e entre preces e cantos louvava o Senhor no culto do Pastor Edclei.

Sua condição miserável jamais impediu que ela e seus filhos contribuíssem com o dízimo. Assim, chegava mais cedo ao vilarejo e na Venda do Quinzin trocava o dinheirinho suado, ganho à custa da venda de sabão em pedra e rapadura pra vizinhança, por moedinhas e as distribuía para os filhos, orientava pra que eles dessem sua contribuição ao Reino dos Céus.

Ciente das travessuras da filharada, sempre alertava:

– Esse dinheirinho é nossa ajuda para as obras de Deus, somente para Deus, e Ele que nos livre de todas as tentações do Outro.

E essa tentação diabólica vinha para mim e meus irmãos na forma de um tabuleiro de “quebra-queixo” que Berto Preto carregava pra cima e pra baixo na pracinha da vila. Nossa moedinha do dízimo dava pra comprar uma “taia” daquele doce, que “vendo com os olhos e lambendo com a testa” imaginava ser maravilhoso. Oh tentação!

Em sua sabedoria, mamãe também sentia essa tamanha tentação sobre seus rebentos e com olhar severo acompanhava de perto o momento das oferendas pra que nenhum dos seus se desgarrasse do rebanho e comprometesse sua salvação.

Pastor Edclei entoava o Canto das Oferendas, nosso martírio:

“O meu dinheirinho, não gastei à toa; dei para Jesus, oh que coisa boa” e a gente depositava aquela moedinha na sacola com uma dor imensa no coração, e no estômago.

Asnar, meu irmão “cadiquinha” coisa mais velho que eu, me ensinou um pecado: prendia a moeda entre os dedos, fingia que a colocava na oferenda mas a trazia de volta. Pequei também!

Após o culto, perambulando na pracinha, escondidos da mamãe, fomos até o Berto Preto e compramos, a primeira vez na vida que comprei algo, nosso tão sonhado “quebra-queixo´. Escondidos atrás do Coreto, nos fartamos daquela guloseima dos deuses(!?).

Maravilhado com aquele sabor adocicado invadindo a aridez da minha boca acostumada a coquinho de macaúba e jatobá, matutei:

– Pecado doce é o mais perigoso!

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