O sentido mais profundo das palavras

Por: Sônia Machiavelli

Para abrir o Programa Jornal Escola, que tem como um de seus braços o Jornal na Sala de Aula, o GCN convida, a cada ano, um nome expressivo na área da educomunicação, termo que vem há pelo menos cinco anos designando o especialista que age na intersecção dessas duas práticas de importância inquestionável em todas as sociedades do planeta: educação e comunicação. Neste 2013 o profissional escolhido foi o paulistano Alexandre Le Voci Sayad, formado em jornalismo e educação, autor do livro Idade Mídia, que , prefaciado por Gilberto Dimenstein, derivou de um amplo projeto desenvolvido com alunos do Colégio Bandeirantes, da nossa capital.

Alexandre aqui esteve na noite do dia 28 para palestra no auditório “Jornalista José Correa Neves”. Oitenta participantes, entre autoridades do município, diretores, coordenadores e professores ligados às redes pública e particular de ensino, acompanharam com interesse genuíno a fala do jovem e carismático palestrante. Apaixonada que sou por etimologia, achei ótimo que ele começasse seus comentários resgatando a origem das palavras infante, adolescente e adulto. Falou com muita propriedade sobre as raízes desses três substantivos tão empregados no cotidiano sem que seu sentido profundo esteja evidenciado. É comum acontecer isso, de perdermos a beleza da alma da palavra, ora por usá-la sem ter conhecimento de sua origem, ora porque o emprego abusivo e descontrolado trouxe ao longo do tempo o natural desgaste que enfraqueceu as primeiras significações. Também as palavras se fossilizam (e os poetas, entre os artistas, são os mais competentes mestres em salvá-las de tais imobilizações).

Assim, quem de nós ao dizer “infância” traz à baila a fase em que a criança ainda não fala, não se comunica com frases inteligíveis? Acho que pouquíssimos e entre estes não me incluo. Se hoje usamos infância para um período largo que vai do nascimento ao início da puberdade, no seu berço o termo definia apenas a criança antes da fala. Ou seja, infante, termo de raiz latina, composto da partícula de negação “in” anexada ao particípio presente “fans” do verbo “fãri”, falar, destinava-se a definir um bebê que ainda não dominava a linguagem mínima para a comunicação. É com certeza por isso que Santo Agostinho, ao dividir a vida humana em sete fases, faz a infância ser seguida da puerícia (de pueri, menino), vindo na sequência adolescência, juventude, virilidade, velhice, decrepitude.

Depois de explicar “infante”, Alexandre Sayad esmiuçou “adolescente”, que alguns arroubos retóricos já associaram indevidamente ao adolecer hispânico, com o qual nada tem a ver. Embora, muitas vezes, diante de certos adolescentes, seja comum nos assomar a impressão de que exista neles alguma exótica doença. O substantivo adolescente nenhum parentesco exibe com dolor da língua espanhola pois se origina de adolescens, particípio presente do verbo adolescere, crescer, já presente num autor do primeiro século a C. Nessa acepção, nenhuma novidade para o público presente. A surpresa viria de mergulho mais profundo, do qual Sayad fez emergir um adolere (ad + olere), verbo cujo sentido residia em “exalar perfumes” e em algum momento da história das línguas latinas se imbricou com o anterior. O adolescente seria então aquele que enquanto cresce lança fora de si moléculas de perfume. O adulto (forma derivada do particípio passado, adultus), já não é capaz de produzi-las. Secou.

A imagem de forte conotação poética foi sugestiva lembrança do palestrante para a importância de resgatarmos, em qualquer idade, essa energia adolescente que se faz marcar por movimento, inquietação, busca, constante brotar de uma fonte cujos vapores revelam a vida. Poderia parecer apenas mais uma dessas propostas difusas que chegam constantemente ao professor, caso a prática não demonstrasse a teoria ali no palco, onde um Sayad com energia e perfume adolescentes conferia vida a tudo que dizia.

Não foram pois gratuitos os reiterados registros feitos no coquetel oferecido no parque gráfico, todos descortinando a sensação de quero-mais. “Ficaria mais uma hora ouvindo-o”, me disseram muitos educadores. Não haveria prova mais evidente da aceitação das propostas de Alexandre Sayad e da admiração pela forma como ele usou as palavras, mantendo contato o tempo todo com seu público, levando o auditório a refletir sobre a escola de nosso tempo como reflexo da vida que muda inexoravelmente. A escola (como a própria vida) pode e deve ser espaço de criatividade, a partir, também, da energia de professores de almas adolescentes, que, independente da idade cronológica, se neguem a se fechar em inodoras e ressequidas carapaças.

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