Para não esquecer

Por: Everton de Paula

Estou no meio de uma conversa. Parece ser a minha vez de falar. Inicio por narrar um caso, aliás, um fato ocorrido quando eu ainda jogava futebol. De botão e de campo. Havia um rapagão que sempre se metia a jogar de beque central, ou qualquer outro nome que venha ter aquele jogador que se planta na defesa adversária e não deixa passar nem vento, nem que para isso tenha que chutar o que estiver vindo em sua direção: a bola, o juiz, uma folha de papel, um passarinho, ou até um jogador qualquer, do time contrário ou do seu próprio time. Chuta, empurra, vai com os ombros, com o peito...

Entusiasmado com minha narração, vejo-a interrompida quando um dos interlocutores pergunta: Qual era o nome desse portento?

Ora, respondo eu, era o... o... trabalhava ali na... perto da... ele era primo do... gente, você conhecem o cara, era o... Reinicio a ladainha.

E assim vai. Não me vem mais à memória o nome do becão, do local onde trabalhava, perto de onde, o nome de seu primo... Tudo branco.

Comecei a me preocupar com esses brancos quando eles deram ares de repetição. Como não acredito em remédios para a memória, optei por fazer exercícios mentais, como responder às palavras cruzadas quase que de hora em hora. Fiz alguns comentários sobre tais esquecimentos com amigos. Um deles, não o comentário mas um amigo, um amigo bondoso, cujo nome não esqueço, mas não quero identificar de público, mandou-me de presente o livro Como ter uma memória superpoderosa, de Harry Lorayne (“o dono da memória mais fenomenal de todo o mundo”, como já está garantido na capa).

A mesma capa apregoa que “com este sistema prático, você nunca mais esquecerá nomes, caras, números, fatos, idéias!”

Tentador, não?

Adivinhe a ilustração: uma bela mão direita em fundo verde, fitilho vermelho com nó cego no indicador. Inesquecível, mesmo.

A contracapa é de dar água na boca: Não existem memórias fracas só memórias destreinadas!”

Quero dizer ao leitor que aqueles brancos que me vinham à memória, de um momento para o outro passaram. Voltei a lembrar-me de nomes, fatos, caras, datas, mas acho que mais por força do ofício de palestrante, de professor, que necessita retomar assuntos, que necessita das lembranças como o padeiro da farinha, do que propriamente do livro. Não foi o livro que operou milagres, embora o meu bondoso amigo, cujo nome não esqueço, estivesse com as melhores das intenções.

Hoje, não tenho queixas mais sérias da minha memória, ainda mais conhecendo a observação de Hermann Hesse: Por vezes, o que as pessoas mais desejam é exatamente esquecer.

Não é interessante? Há pessoas que vivem este drama ao contrário: vão ao psicanalista e pagam para lembrar coisas que pagariam para esquecer. Vai entender!

Voltemos ao livro que ganhei. Folheei-o. O primeiro capítulo trata do observador atento, lançando logo uma questão transcendental: Que luz se acende no topo do semáforo: Verde ou vermelha: Vermelha ou verde?

Ou esta outra: Em que cor está escrito “Ordem e Progresso” na bandeira nacional brasileira?

Ou ainda esta: “Os cantos das calçadas nas esquinas são em ângulo ou em curva?

Depois encontro um exercício curioso. Veja: RÁPIDO! PENSE EM UMA FERRAMENTA E UMA COR! E sigo adiante. Mais um pouco... Um pouco mais. Aí o autor diz: Pensou em um martelo vermelho, não é verdade? Se não, você e parte de 2 % da população formam um grupo diferente para pensar em outra coisa. 98% da população respondem “ martelo vermelho” quando resolvem este exercício.

Outra: O número seis do mostrador de seu relógio aparece como 6 ou como VI?

Fui correndo conferir no meu relógio, preocupado por não saber responder a esta questão. Veio-me uma grata revelação: não tem número algum, apenas uns risquinhos dourados absolutamente iguais o que faz do simples ato de ver horas nele um exercício abstrato de medir ângulos. O ponteiro dos segundos tem quase o tamanho dos outros, só é mais fino.

Gosto de algumas historinhas rápidas sobre memórias: Seu marido se esquece da data de seu aniversário?

Nunca, responde a patroa. Faço com que ele se lembre de meu aniversário duas vezes ao ano, em junho e em janeiro. E sempre recebo dois presentes!

Ou ainda esta: o orador, já transpirando por todos os poros, dirigindo-se a uma grande plateia: Há meia hora, meus amigos, eu e Deus sabíamos o que eu haveria de lhes dizer. Agora, só Deus sabe.

Ah, devo lhes revelar o nome de meu bondoso amigo que me enviou o livro de memória: Alfredo. É isto mesmo: Alfredo... Ou seria Godofredo?

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