O Caçador de Pipas

Por: Maria Luiza Salomão

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“sempre dói mais ter algo e perdê-lo do que não ter aquilo desde o começo”
Amir

O Caçador de Pipas (o livro e o filme) tem êxito ao nos aproximar da cultura do Afeganistão, o fundamentalismo religioso que constrói paredes intransponíveis entre grupos, o racismo a definir hierarquias e ódios indeléveis. Uma história de duas crianças emblemáticas, Amir, da etnia pashdun, e Hassan, da etnia hazara. O Afeganistão sofreu a invasão da Rússia, guerreou com os EUA, viveu por cinco anos sob um regime fundamentalista, o Talibã. Nos noticiários internacionais, vimos os bombardeios, as terras afegãs serem transformadas em escombros, olhamos distraídos a TVm sem ver as pessoas esmolambadas, de turbantes ou véus, vagando nas ruas, carros abertos; cansamos de ver homens empunhando armas pesadas. Quiçá até restamos entediados.

Poetas nos acordam para enxergar a (des) humanidade de um povo, pois não discursam, não estupram a Verdade, para usar a forte metáfora do romance. Poetas velam e revelam a Verdade em símbolos e metáforas como tentam fazer os psicanalistas. O Caçador... inicia com a câmera na cortina, translúcida, balouçando, delicada, a sugerir que a vida pode ser buscada descortinando uma janela da alma, ou a janela de um país.

Amir, sunita, e Hassan, xiita (“nada conseguiria modificar isso. Nada.”, diz Amir, o protagonista) mantêm uma estranha amizade. Hassan é filho do empregado, Ali, “amigo” de baba (quer dizer pai) há quatro décadas. Amir e Hassan são “irmãos de leite”. A mãe de Amir morreu no parto e a de Hassan abandonou Ali, por outro homem. O universo da história é todo masculino. Amir (aos 12 anos) sente que seu baba o odeia, por “ele ter matado a mãe, ao nascer”; é o narrador dos acontecimentos. Quando criança sentia-se apoiado pelo amigo e sócio do pai, Rahim Khan, que apreciava suas histórias e dizia que Amir iria se tornar escritor.

Podemos entrever as fibras psicanalíticas que conduzem à Violência, à perda da Inocência, à Culpa, ao Ódio, à Inveja, ao Remorso. Amir e Hassan estão (pelos ditames da sociedade em que vivem) separados pelas etnias (pelo ódio racial, histórico, entre pashtuns e hazaras) e pelas religiões (sunita, Amir, e Hassan é xiita), além do status econômico. Desigualdades intransponíveis, segundo o narrador. Amir narra a complexa travessia até a sua própria Redenção, no reconhecimento da sua própria covardia, no Arrependimento e no Remorso, até conquistar o Perdão a si mesmo. Amir carrega, em si, uma culpa incomensurável, como Caim. É ambivalente em suas atitudes, consciente de seus conflitos. Na corda bamba, entre patologias mais graves de personalidade (sociopatia, paranóia, esquizofrenia, perversão), Amir torna-se...escritor. Os percalços no desenvolvimento de sua personalidade tornam Amir um personagem complexo, com um olhar de sombras, denso, a testar o amor devocional de Hassan por ele, a sua subserviência. Hassan é corajoso, consciente de seu lugar na escala social, e é intuitivo: “vê” o sofrimento intenso de Amir, e isso parece lhe dar a sabedoria de sustentar o seu amor até o limite pessoal extremo da honra, dignidade e orgulho. Hassan não consegue descrer da sinceridade de Amir, o qual, irônico, comenta que esse é o defeito de quem é muito sincero.

Um acontecimento separa os dois, como as encruzilhadas dos destinos do Afeganistão. No concurso de pipas, que acontece todo inverno, Hassan tem o dom de caçar pipas, sabendo, intuitivamente, o exato lugar em que cairão, depois de cortadas as linhas das pipas, no ar. Hassan quer que Amir ganhe o concurso, no qual o seu baba fora recordista, sabendo que Amir se sentia pouco valorizado por ele. A lealdade de Hassan a Amir (na frase “por você (Amir), faria isso mil vezes...”) ressoa na narrativa pungente de Amir, que se vê covarde, após o desencadear da tragédia que desonra Hassan, da qual é testemunha. Amir passa a desprezar Hassan. Não pode se perdoar, e, assim, não perdoa Hassan por sentir-se mau.

Amir mente ao baba, criando uma situação insustentável, obrigando Hassan e seu pai a saírem da casa de baba. Ocorre a invasão russa e Amir e o seu baba saem do Afeganistão e se refugiam nos EUA. O destino de Hassan, ao permanecer no país de origem, foi outro. Os acontecimentos entre as crianças refletem, passo a passo, o destino funesto afegão.

“Há um jeito de ser bom, de novo”, diz Rahim Khan para Amir, ao telefone, duas décadas depois do fato que Amir jamais esquecera (assim se inicia o filme). Muitas pipas-pensamentos no ar, no Centro Médico, nesse sábado.


DIRETOR

Marc Forster

O Caçador de Pipas, 2007, teve, na sua filmagem, uma equipe multinacional. Foram produtores um americano e outro canadense, o diretor é suíço, o roteiro foi feito pelo autor do livro, o afegão Khaled Hosseini, e o escritor americano David Benioff. Filmado no Afeganistão. Mas algumas cenas rodadas na China, devido ao perigo que a equipe corria durante a filmagem. O elenco mirim foi garimpado em diferentes lugares onde os afegãos têm buscado refúgio, desde a invasão russa, e o temível regime talibã. O ator que fez Amir adulto é egípcio, e se esforçou no aprendizado da língua.

É significativo ter tantas nacionalidades congregadas. As organizações internacionais não parecem se comover com o sofrimento do povo afegão.

O autor do livro homônimo (2003) construiu uma trama humana, urdida em uma metáfora brilhante (o espectador e/ou leitor verão, no momento “de virada” na relação entre Amir e Hassan) para pensar os estupros sucessivos que o Afeganistão tem sido vítima, ao longo de décadas, desde a invasão russa, em 1978, no mês de abril. O autor é um poeta: suas metáforas entretecem a sutil tessitura psicológica vivida pelos personagens, e a violenta história social-política vivida pelo povo afegão. Teve oito milhões de cópias editadas em 29 países, um milhão de cópias no Brasil.

O regime talibã colocou o concurso de pipas entre inúmeras proibições, o que inspirou Hosseini a usar a brincadeira infantil como um recurso literário a acenar para o livre resgate da cultura afegã. Pipas voam no céu, imagem de esperança no porvir, ao final do filme. (MLS)

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