O caminho da velhice

Por: Caio Vieira Reis de Camargo

O avanço da medicina associado a um maior aprofundamento científico em pesquisas envolvendo a saúde apresenta-nos, cada vez mais, uma sociedade mais longeva e, ao mesmo tempo, mais receosa quanto à forma de encarar a idade e as novas configurações de vida que o tempo nos impõe. Assim como em várias passagens da mitologia grega, quando o prêmio almejado por muitos homens era a imortalidade, o tabu de nossa sociedade, hoje, mostra-se a busca incansável por retardar, tanto estética como fisicamente, os efeitos do envelhecimento.

C. S. Lewis, renomado autor infanto-juvenil, uma vez disse: “A experiência é um professor brutal, mas você aprende, oh, meu Deus, como você aprende”. Há dois momentos muito distintos na velhice: aquele em que, ainda desfrutando de uma autonomia física e lucidez mental, a pessoa consegue conviver com amigos e familiares e desfrutar de momentos de prazer; e aquele em que, como numa reviravolta temporal, precisamos de cuidados tão parecidos quanto o de uma criança recém-nascida, quando as limitações refletem no olhar que, por vezes, soa como desamparado.

É importante lembrar também que, durante a vida e convivência familiar, muitos pais tratam seus filhos com hostilidade, desrespeito, poder, sem considerar que, com o passar do tempo, inevitavelmente, haverá uma troca de lugares entre cuidador e quem precisa ser cuidado. Afeto e amizade com os filhos que decidimos trazer ao mundo são fundamentais e certamente são responsáveis por sustentar um baluarte de maior aproximação quando a vida inverter os papéis.

Os momentos frágeis de nossas vidas expõem também a fragilidade de nossas relações: nossas famílias aparentam se reduzir quando o equilíbrio é rompido por uma doença ou por uma necessidade de cuidado. Independente se há obstáculos como distância ou outros fatores, quatro filhos viram um, onze netos se tornam três, que às vezes, encaram, sozinhos, o dever moral e respeitoso de cuidar de alguém que os criou ao longo da vida. Mais difícil do que conciliar a própria rotina com os detalhes no cuidado ao idoso, desde as tarefas domésticas, quanto seu estado de espírito, é justamente, tentar entender o silêncio dos demais e evitar que nos cause a triste e revoltante sensação de um completo descaso e uma consequente acomodação.

“Era uma vez...” e assim começavam muitas das histórias narradas pelos nossos avós, quando nossos inocentes olhos refletiam o entusiasmo por mergulhar naquele mundo fantástico que ele erguiam com simples palavras. E quando a euforia das crianças cantar mais baixo e trouxer a questionável serenidade da vida adulta, ansiamos marcos no rosto pelos traços do tempo, que aqueles que criamos possam retribuir todo aquele gesto e contar histórias que nos orgulharão de ter lutado para chegar tão longe.

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