Salles Dounner

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Nunca fui versado em artes plásticas. Isso não me impediu de apreciá-las e de visitar exposições de pintura e de desenhos, até de alguns famosos, apesar do crônico isolamento cultural em que, quase sempre, vivemos aqui. Em um momento de rompimento desse isolamento, visitei uma mostra de desenhos, onde havia alguns do famoso artista Lasar Segal. Isso aconteceu em sala da Praça Nove de Julho e, no final da década de oitenta ou começo da década de noventa. Acredito que tal amostra foi trabalho de Atalie Rodrigues Alves, em sua luta para disseminar um pouco de arte e beleza em nossas sonolentas plagas.

Aquele evento foi fundamental em minha vida e em minha visão sobre artes plásticas. Comparei, pela primeira vez, o trabalho de um artista famoso e a produção de um homem desconhecido e com quem convivíamos: Salles Dounner. Muita coisa se iluminou.

Desde aquele dia, algo me disse que Sales era mais que um tipo exótico e que seus traços o alinhavam ao lado dos grandes artistas do país, pelo menos nos desenhos a bico de pena. O homem era um vulcão, cujos traços firmes, singulares, pungentes e de uma beleza inquietante, expressavam uma visão de mundo e do ser humano, com uma lucidez espantosa.

Salles Dounner freqüentava o Grupo Veredas, então em sua primeira fase, quando publicava poesias de sua lavra na revista Veredas, publicação mensal do grupo. Em 1980, o grupo publicou o livro VEREDAS, uma antologia com dezesseis desenhos de Salles, incluindo a capa.

Daí por diante, o artista desenhou capas para muitos escritores e ilustrou, de forma magnífica, o primeiro livro de Regina Helena Bastianini: Eu e o Mundo.

Houve um tempo em que Salles se dedicou à pintura a óleo. Como seus desenhos se extraviassem com muita freqüência, propus-lhe publicá-los em livro. Acordamos que ele faria os desenhos, e eu os ilustraria com textos meus ou de terceiros. Saiu a público, em 1992, o seu livro ARTE NULA, contendo cinqüenta desenhos, a meu ver, extraordinários.

Artista, na mais completa acepção da palavra, desapegado, Salles deixava que sua obra se espalhasse por mãos que nem sempre o valorizavam condignamente.

Hoje, o que se sabe é que parte de seu acervo é preservado por alguns fiéis admiradores e por sua esposa.

Inegavelmente, Salles é um dos mais importantes artistas plásticos que aqui viveram. Produziu uma obra que, dentre temas contundentes da época, trata de forma singular dos problemas sociais e políticos, criticando, de forma aguda, o período da ditadura militar.

Por tudo isso, sua memória merece e deve ser cultivada por quantos amam a arte e a cidade de Franca.

A Câmara Municipal objetivou isso, ao criar, em 1999, por iniciativa do então vereador Jaime Batista, o Centro Cultural Salles Dounner, que deveria ser instalado em espaço da desativada Estação da Estrada de Ferro Mogiana. Até hoje, o Centro não foi efetivado, sempre sob alegação de falta de espaço físico.

Informações me chegam de que, atualmente, existe espaço disponível e que o prédio anda à mercê do descaso do poder público.

Informações me dão conta também de um grupo de jovens dispostos a injetar sangue novo no meio artístico da cidade. Seu projeto inclui resgatar a memória de Salles Dounner e revitalizar espaços públicos, o que inclui efetivar o projeto que criou o Espaço Cultural Salles Dounner.

Admirador da arte francana e dos homens que tão solidamente a constroem, lanço nestas palavras meu apelo de apoio imediato à iniciativa. A efetivação do Centro faria, ao menos postumamente, um pouco de justiça a Salles, tão relegado em vida pelos que não distinguem o artista do homem, frágil como todos os homens.

Franca, está aí, em plena e bela ebulição da juventude, um grupo disposto ao trabalho, criador do Corredor Cultural, já em atividade e que pode tirar da modorra oficial a arte francana e mobilizar artistas e público na construção de suportes para que, quem sabe, a cidade descubra que a Arte é muito maior que os cânones e as paredes oficiais.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras