As plumas do homem-pavão

Por: Maria Luiza Salomão

...descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d’água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas. Rubem Braga.(1958)

Os bichos e os adjetivos humanos! Leão, o rei, poderoso. Águia-rapina. Passarinho-cantor. Preguiça-preguiçosa. Coelho-fértil. Rato é “rato” (e se diz tudo). Gazela-terna. Elefante-memorioso. Coruja-sábia. Cachorro-fiel. Gato-ladino. Galo-briguento. Macaco-imitador. Búfalo-irado. Serpente-maligna. Tartaruga-lenta. Caracol-ensimesmado. Papagaio-tagarela. Burro-burro.

O pavão abre suas asas e é “óóóóóó!” geral. Exibido. A beleza não passa distraída. Por que se diz que pena de pavão dá azar? Por bonito demais? Melhor ser tatu na toca? Ou fechado em ovo?

O bicho homem adjetiva os animais. Cria catacreses (ô palavra feia, mas que mostra como se maltrapilha uma palavra). O homem nem percebe que pavoneia os animais no seu nome, refletindo, na figura de linguagem, o arco-íris de sentimentos-gotas fragmentados na sua pluma.

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