Passarim

Por: Everton de Paula

Veio de Minas. Instalou morada na pequena cidade de P... Ajeitou família, montou um barzinho de esquina com o que lhe restou de uma herança pouca e tardia. Às tardezinhas, despejava em óleo fervente a pele e banha de porco; com a escumadeira, retirava os torresmos e a pururuca, que estalava nos dentes dos boias-frias que, ali, faziam ponto. Às vezes, pediam-lhe fritar uma linguiça ou outra carne qualquer: a branquinha arrematava e nivelava o que se trouxesse à boca esfomeada.

O homem tinha lá seus caprichos, de raízes mineiras. Tratava com o xodó que lhe permitiam as mãos calosas os tuins, pássaros-pretos, azulões, curiós, bicos-de-lacre, canários e um mestiço africano. A calopsita, de nome Sara, empoleirava-se docilmente no indicador estendido do dono e deixava-se acariciar no cocoruto. Cantavam, piavam, chamavam, esgoelavam numa sinfonia para os ouvidos de gente cansada, mas um verdadeiro inferno para Nego Armindo, vizinho colado ao bar e à casa do Mineirinho, pois assim a freguesia passou a chamá-lo.

Nego Armindo era homem costumado a roçar sob sol escaldante. Mal-humorado, quase sempre, dava um ‘dia, ‘tarde para os mais conhecidos. Não trazia nenhuma ostentação ou gosto por este ou aquele prazerzinho de cidade pequena. Aliás, desgostou-se no mais não poder com a cantoria daquela passarada do tal Mineirinho. Ambos formavam a antítese de ação, gestos e figura: Nego Armindo, preto, forte, alto, desdentado, gestos bruscos, atabalhoados, mal medidos. Por quase nada, derrubava copos, esbarrava gente, espantava criançada. Restaram-lhe na boca um molar e um canino. O resto era escuridão total e úmida.

Mineirinho, não; pessoinha miúda, olhos muitos próximos um do outro, apequenado, ensimesmado e munido de toda uma cisma das alterosas.

Se Mineirinho tinha os passarinhos, a quem chamava de “meus amores”, Nego Armindo trazia consigo seu companheiro de longa data: um canzarrão de maus-bofes que ganhara de seu último patrão, na fazenda Porteira da Pedra. O tal do cachorro parece ter saído tal qual o dono: rosnava feio até para folha seca que levantasse vôo em dia de ventania. Recebeu o doce nome de Bigorna.

Assim como urubu e maritaca não se bicam, sol e lua não namoram, raiva e cantoria não cabem no mesmo vidrinho, um dia alguma coisa teria de acontecer entre aqueles contrários. Ah, a inexorabilidade das tragédias! Foi numa tarde, exatamente à hora da cantoria geral, em meio à fumarada que os torresmos iam deixando no ar, fritada de banha em óleo fervente. Nego Armindo falou pouco e grosso: ou aquela passarinhada calava o bico, porque “já tava enchendo o saco”, ou então... Não terminou a frase: deixou-a no ar quando sentiu o olhar de cabrito tonto do mineirinho fixo em sua pessoarra. O homem era pequeno, mas não era covarde. Seu olhar mirou o Nego Armindo de alto abaixo, acariciou o cabo do canivete, deu uma cusparada pro lado e a coisa ficou por aí, talvez em respeito ao pessoal do bar, sentadinho, comendo torresmo, carne frita de origem desconhecida, e cerveja de qualidade discutível. Entretanto, a ameaça surdiu da boca desdentada do negalhão.

A partir daqui, a história se desenrola de acordo com o que me contaram. Nem sei se é verdade. Dizem que, nas semanas seguintes, passarim por passarim ia amanhecendo morto, de bico aberto e linguinha roxa. Mineirinho foi-se apavorando, vendo seus amores diminuindo, acabando... E a cantoria dando lugar a pios menos barulhentos...

O mistério seria logo resolvido. Esperando que Nego Armindo fosse dar a volta na praça para o Bigorna satisfazer algumas vontades, Mineirinho, mansamente, deu um jeito de pular a cerca de bambu enfileirado que fazia as vezes de muro do quintal do vizinho. Perto do tanque, descobriu uma trilha de pozinho cor-de-rosa, que começava num pacotinho de formicida e terminava pras bandas do seu bar. Não teve dúvidas: a passarinhada tava sendo assassinada.

Voltou ao bar. Anoiteceu. Sentou-se na sarjeta sob luz frouxa e fraca do poste. Matutou, matutou enquanto picava o fumo de corda para mais um cigarrinho de palha.

A noite passou em meio a barulhos de quem não queria fazer barulho. Amanheceu. Curió cantou, mas bicudo não, que não havia mais bicudo. Pra hora do almoço, a vizinhança só ouvia o grito rouco do Nego Armindo chamando seu fiel companheiro, desaparecido desde cedinho: “Bigorna, Bigorna, aqui Bigorna!!!”.

Que é do Bigorna? Onde foi parar o bicho?

À tarde, na hora do torresmo frito do tacho de cobre, a freguesada lambia os beiços e elogiava uma carne especial, diferente (seria o tempero?) que Mineirinho havia preparado.

Nunca mais o Bigorna latiu; aliás, nem apareceu mais. Dizem que só dois curiós e um canarinho-da-terra insistem em cantar, que o resto também bateu as asinhas pro céu. O que ninguém descreve, por respeito e certo temor, na pequena cidade de P..., é o ódio calado, contido com que se olham Mineirinho e Nego Armindo.

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