De mãos dadas

Por: Débora Menegoti

Tua água chama os beija-flores para beberem grandes goles em reboliço, redemoinho, banho de passarinho. Vale a pena ver nas cores: faróis, estrelas, céu, horizonte de mirar azul. Vale porque pulsa verde ao redor e o vermelho é batom de ruiva te esperando logo na janela da esquina.

Se dói muito agora, é mérito, não castigo. É dádiva poder sentir coisa nesses dias. Almuda! É isso! Você é Almuda!

Se aberta está a boca, mira pra fora, não te indagues; o contrário, sinta. Mas engole esse lamento, essa ânsia. Não seja egoísta, tua vida não é tão somente tua; nem solidária a doar-se até ver-se nua. Deixe turvar as águas, faça isso você mesma. Saia já daí, desse breu que te apaga. Ouça um radiante frevo-rock de estrada, sê livre de discos tristes. Eles não te acordam, eles não te livram traiçoeiras cobras domesticadas, não recolhem goiabas da tua grama, não te pagam, não tomam banho de mangueira d’água, não tiram nata do teu leite, não limpam tuas unhas. Nada.

Tu és margarida, não erva daninha. Acredite! Beba mais um gole da Vida, se embriague de alecrim, de sorrisos e bolhas de sabão. Deixe te regar um pouco, amiga. Deixe lavar. Sei que estás assim porque dura é tua lida. Mas, veja: de que droga adianta? Pois que baita droga maior não há que negar-se viver em vida. Como cigarro no pires em brasa, cinza e chão. É ofertar comida a faminto que não se recorda de onde sua boca está. É vaso que recebe flores, não contente em ser vazio, nem com toda flor que pode levar, não sabendo que tanto vazio, quanto quando em flor, tua beleza está. Mas sem luz, nada se vê. Acende essa cor! Olhe suas mãos, como elas se movem infantis, dançando ao vento, esparramam amarelo perfume de sol.

É de furar, comer com os dedos. É de abraçar os medos. É de dar beijos na boca, bochecha, e pezinhos. É puxar às vezes o tapete da gente, que o solo da vida é sagrado, não firme, mas pode pisar. E por isso vim. Só pra te lembrar.

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