Tia Júlia e o Escrevinhador

Por: Sônia Machiavelli

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Ando em tempo de releituras, conforme já comentei por aqui. E, admiradora de Vargas Lhosa, dele tendo lido alguma coisa no passado, e continuando a acompanhá-lo pelo Estadão onde escreve aos domingos, escolhi desta vez Tia Julia e o Escrevinhador porque queria recuperar o impacto da primeira vez, quando me deslumbrei com seu manejar sofisticado da narrativa.

Como é do conhecimento de muitos, este escritor peruano, tanto quanto criar um mundo de personagens insólitas, sabe inseri-las em tramas de intricados e originais traçados: seu modo de erigir o enredo é tão interessante quanto os tipos que consegue compor. No livro em foco, há contos independentes à narrativa principal, ligando-se a ela por conexões sutis. Nada impede que leiamos os contos, ignorando a saga amorosa que os contém como um grande parêntese. Mas sabemos, ao chegar à última página, que os contos têm importância essencial no todo ao ampliar e robustecer o motivo central do romance que é, em suma, a reflexão sobre o desenvolvimento da vocação literária.

Falar da saga do livro é retomar o que se pode ler na coluna ao lado, pois o romance é, confessadamente, um relato com fundo fortemente biográfico. O narrador volta ao passado para contar como se apaixonou, aos 18 anos, por uma mulher de 35, divorciada, cunhada de um tio materno. Tudo acontece na conservadora Lima, pintada com tintas irônicas e humorísticas. Varguitas, universitário e jornalista com vocação literária, e Júlia têm de passar por várias provas ( a família, a lei, o escândalo, a necessidade de acumular empregos para sobreviver) , característica do relato romanesco tradicional, até que consigam se casar. Viverão juntos oito anos e no final deste período se divorciarão. Ele volta a se casar, um ano depois, com uma prima.

Toda a trajetória do casal é descrita sem dramas, de forma leve, engraçada, mais gentil que lírica. Às vezes parece pano de fundo para falar de Pedro Camacho, que é criação sem suporte verídico, embora muito verossímil, sem dúvida o mais vivaz personagem do romance. Boliviano como Tia Júlia, trabalha numa rádio de Lima e faz grande sucesso com suas nove novelas radiofônicas, todas levadas ao ar diariamente. A ação se passa nos anos 50, quando a televisão era apenas um projeto que começava a ser desenvolvido. Neste contexto, Pedro Camacho mantém a população peruana em clima de suspense com suas histórias de humor negro onde pontificam adultérios, pedofilia, incesto, parricídio, mortes escabrosas, situações mirabolantes que destacam personagens excêntricos . De sua imaginação fervilhante saem episódios surrealistas como em Garcia-Marquez; imagens hiperbólicas como em Manuel Puig; fetiches perturbadores como em Nelson Rodrigues. Difícil encontrar mosaico mais latino-americano. Constituem extraordinárias criações
os contos sem título dos capítulos XII (sobre os donos da Pensão Colonial); XIX (a respeito do padre Seferino Huanca Leyva); XVI (com foco num herdeiro, Joaquin Hinostroza Bellmont, que quer ser técnico de futebol), XVIII (onde, à parte um enredo de samba do crioulo doido, se configura imensa metáfora sobre os frágeis limites entre ficção e realidade).

Alguns críticos leem nesta linha em que atua Camacho uma homenagem do autor à literatura kitsch do continente. Mas me parece também o elogio à entrega total do escritor à ficção. Este Camacho que ‘escreve, escreve, escreve’; que lembra um Almodóvar à beira de um ataque de nervos, que se devota inteiro ao mundo da ficção, perfila-se ao olhar do narrador como o escritor que vai consumindo sua vida no trabalho intelectual, mesclando realidade e ficção de tal modo que acaba insano. Seu desequilíbrio, que começa com a confusão de nomes e funções de personagens, agrava-se até chegar à migração destas de uma novela a outra, e chega ao ápice com a matança de todo o elenco em cataclismo que os ouvintes não perdoam por extrapolar em demasia a realidade. É hilário. Mas grandioso.

Educação sentimental de braços dados com o aprendizado da escrita literária, assim poderia ser definido de forma concisa este romance de Vargas Lhosa. Isso nos permite dizer que Tia Júlia e o Escrevinhador assume nas letras hispano-americanas a função de romance de formação. Ou, na língua de Goethe, um bildungsroman. Dos melhores, com o leve toque joyceano de Retrato do Artista Quando Jovem.

HISTÓRIA E ESTÓRIA

Mário Vargas Lhosa

Quando Mário Vargas Lhosa nasceu na capital do Peru, em 1937, seus pais Ernesto e Dora já estavam separados. O menino só conheceu o pai aos 10 anos, quando o casal se reconciliou. Sua primeira década de vida passou-a na Bolívia, na casa dos avós maternos. Aos 11 anos voltou a Lima e aos 14 ingressou no Colégio Militar de Miraflores. Essa experiência lhe renderia o enredo de seu primeiro livro, A cidade e os cachorros.

Quatro anos depois, cursando Letras e Direito, apaixona-se por Júlia Urquidi, divorciada, 16 anos mais velha, irmã da mulher de seu tio materno, Ucho. Apesar da forte pressão familiar, casa-se com ela em 1956 e passa a ter vários empregos para sobreviver. Com duas bolsas conquistadas a duras penas, muda-se para a Europa. Em 1964 divorcia-se de Júlia. No ano seguinte casa-se com Patrícia Lhosa, sua prima, com quem tem três filhos. Esse período intenso de sua vida constitui a maior parte da intriga de Tia Júlia e o Escrevinhador, publicado em 1977, o mais traduzido dos seus livros. Outros títulos:

A casa verde, Conversa na Catedral, Pantaleão e as Visitadoras, A guerra do fim do mundo (sobre a nossa Canudos), História de Mayta, Quem Matou Palomino Molero?, O Falador, Elogio da Madrasta, Liturna nos Andes, Os Cadernos de Dom Rigoberto, A Festa do Bode, O Paraíso na Outra Esquina, Travessuras da Menina Má, O sonho do Celta.

Foi-lhe outorgado em 2010 o Prêmio Nobel de Literatura, tendo a Academia Sueca, ao fazê-lo, considerado na obra do escritor ‘sua cartografia de estruturas de poder e suas imagens vigorosas sobre a resistência, revolta e derrota individual.’

Serviço
Título: Tia Júlia e o Escrevinhador
Autor: Mário Vargas Lhosa
Ano: 1977
Editora: Publifolha/ Literatura Ibero-americana

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