Vó Naninha

Por: Ronaldo Silva

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Tanto quanto qualquer outra, minha família compõe-se dos mais variados personagens, cada qual com seus trejeitos e histórias particulares.

Entre todos eles, há uma pessoa sobre a qual sempre nutri muitas interrogações íntimas e certo ressentimento. Ana, minha avó materna, a quem sempre chamamos de Vó Naninha.

Ela era uma criatura taciturna, reconhecidamente depressiva, amarga e ranzinza. Em toda a minha infância, quando via os adultos mencionarem o substantivo ‘tristeza’ ou, na sua forma adjetivada, ‘triste’, eu não tinha a menor dúvida em encontrar no pensamento a imagem que simbolizava o verbo: minha avó. Não tenho dela lembrança do mais sutil sorriso e isso sempre me impressionava muito. Afinal, desde que existem os netos, as avós sempre sorriem, são amáveis e acolhedoras para seus netos. Mas com a vovó Naninha, isso tudo simplesmente inexistia.

As recordações mais pungentes que trago dela levam-me de volta aos meses anteriores à sua morte, em meados da década de oitenta. Viúva de meu avô ha mais de ano, ela passou a viver como peregrina na casa das filhas, em esquema de revezamento, dada a incapacidade de viver sozinha.

Assim, houve um período em que vovó esteve em nossa casa. Dias em que eu, pré adolescente, mesmo sem entender direito as razões, sentia recrudescer ainda mais em mim o sentimento de repulsa que tinha por aquela velhinha miúda que jamais me fizera um carinho. Quando eu chegava do trabalho na lavoura, juntamente com meu pai e meu irmão caçula, invariavelmente ela estava sentada numa das cadeiras da cozinha, o tronco curvado como se quisesse mergulhar a cabeça no próprio ventre e desaparecer. O olhar se perdia no chão, como a denunciar que não se sentisse digna de fitar o horizonte. Naquela posição permanecia até a hora do jantar e a ela voltava depois da refeição, até o momento de recolhermo-nos todos para o sono reparador da noite, que naquele tempo na roça era sempre bem cedo, para que o dia seguinte amanhecesse também sem atraso.

Nossa casa só dispunha de dois quartos - o de meus pais e o das crianças, onde nos acomodávamos minha irmã, meu irmão e eu. Àquela época, minha irmã já passava a semana toda na casa da madrinha Vandinha, aqui na cidade, para seguir os estudos ginasiais, de modo que Vovó Naninha ocupava sua cama vaga.

E era nesse momento, quando a luz do quarto se apagava e o silêncio invadia todos os recônditos de nossa casa simples, que eu, sempre insone, me entregava mais intensamente às elucubrações sobre a avozinha materna. O que ela pensava naqueles longos períodos em que permanecia cabisbaixa sentada na cadeira da cozinha? Será que se recordava do passado? Se for isso, seria esse passado tão triste a ponto de ter-lhe roubado o sorriso e a vontade de conversar, como deveria ser típico das avós? Seria saudade do vovô?

Em doze de abril de 1987 ela se foi de entre nós, quando era mãe de oito filhos, sendo três homens e cinco mulheres, e avó de vinte e dois netos, sendo eu o vigésimo primeiro, contando doze anos de idade naquele momento.

Eu fui crescendo, entre alegrias e tristezas fui aprendendo que a vida não é sempre mar de águas calmas como na infância, entendendo que as pessoas têm suas histórias, suas trajetórias traçadas quase sempre entre espinhos agudos, com alguns oásis aqui e ali a refrigerar a alma das refregas do dia a dia.

Muitas histórias de meus ancestrais passaram a deixar de ser segredo para mim, na medida em que os adultos de então foram julgando que eu desenvolvia maturidade suficiente para tomar conhecimento delas e acima de tudo compreendê-las dentro da grande engrenagem da vida.

Não demorou para que eu conhecesse melhor a trajetória do casamento de meus avós maternos, o que demandou de minha parte uma boa dose de compreensão, haja vista as dificuldades por que eles passaram, sobretudo em virtude das aventuras extraconjugais de meu avô e de suas dezenas de empreendimentos mal sucedidos. Uma história marcada por mudanças bruscas de trajetória, quando ora meu avô tinha um sítio aqui no Estado de São Paulo, ora estava com a tralha toda em cima de um caminhão, de mudança para o Paraná, onde pulava de cidade em cidade. De repente, de volta a São Paulo, mudança pra Ribeirão Preto, depois pra São Joaquim da Barra, depois Ituverava (ou na ordem inversa, sei lá!)

Não foi difícil ajuntar as peças do quebra-cabeça e entender grande parte das amarguras da minha Vó Naninha, enfiada num casamento com um homem que, a despeito de ter sido um excelente pai para suas filhas e de jamais ter deixado faltar o básico para a sustentação da casa, comportava-se como um perdulário, era mulherengo e excessivamente desastrado nos negócios, a ponto de pôr a perder a herança dos dois lados da família.

No último almoço de domingo, entretanto, numa conversa absolutamente casual entre minha mãe e eu à mesa, foi que fiquei conhecendo uma história emocionante e totalmente inédita sobre minha Vó Naninha, justamente quando estamos prestes a ver completarem-se vinte e seis anos de seu passamento para o plano espiritual.

Tal história ajudou-me a curar feridas que eu mesmo fizera em mim, pela incompreensão mais profunda seu mundo íntimo. Em verdade, mudou radicalmente a visão que eu tinha a seu respeito.

Mas essa história merece um capítulo à parte. E assim será. Numa próxima edição.

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