Muitas almas

Por: Jane Mahalem do Amaral

Quando estudei literatura na faculdade, o meu Curso de Letras não me preparou devidamente para a poesia de Murilo Mendes. Mineiro de Juiz de Fora , foi poeta modernista. Fui conhecendo, bem lentamente, alguns poemas que me impressionavam pela densidade reflexiva ou pela aguçada visão da realidade brasileira. Em um dos seus mais conhecidos poemas, Canção do Exílio, ele faz uma releitura de Gonçalves Dias e brinca em um texto irônico e bem humorado quando diz:”Minha terra tem macieiras da Califórnia...”

No entanto, só bem recentemente é que fui conhecer um pouco mais de Murilo Mendes quando o seu poema Choro do Poeta Atual bateu em mim tal como um soco no estômago. Diz ele: “Deram-me um corpo, só um! /Para suportar calado/ Tantas almas desunidas/Que esbarravam umas nas outras/De tantas idades diversas.” Fui então atrás do poeta. O que mais dizia esse homem? Então me deparei com uma busca de identidade, que corria atrás de sua alma, procurando encontrar o verdadeiro sentido da existência humana.

Diz sua biografia que, mais tarde, em sua vida, ele se tornou espiritualista e sua poesia isso nos revela. “Nascerei em outras terras, com olhos novos/Me desdobrarei em planos infinitos, estarei nos olhos da criança nascendo”.

Murilo Mendes tem uma poesia do conhecimento nos dizem seus estudiosos e críticos literários. E que conhecimento ele nos traz? Ele consegue sair daquela poesia rebuscada, dos sonhos perdidos, do lamento e vai em busca de uma verdade mais simples, mais essencial “Ai, Senhor, quero ser simples./ E tão banal que até os passarinhos reconheçam e, sem estranhamento, pousem perto. /Ai, Senhor, quero ser simples e doce. /E tão banal e tão sutil que a violência jamais enxergue o meu rosto no tumulto do mundo.”

Foi para mim uma doce alegria me reencontrar hoje, mais de perto, com a poesia de Murilo Mendes. Talvez no meu tempo de estudante universitária, mesmo estudando-o, eu não o compreendesse, pois há sempre um ranço literário quando se trata de uma espiritualidade explícita. E ele não vacila quando afirma: “Não nasci no começo deste século:/Vim para conhecer Deus meu criador, pouco a pouco,/Pois se O visse de repente, sem preparo, morreria.”

A poesia de Mendes restabelece a convicção de que somos todos um, recupera forças e redimensiona a nossa responsabilidade: “Sou todos e sou um./ Sou ligado pela herança do espírito e do sangue ao mártir, ao assassino, ao anarquista, ao santo e ao demônio, / Construídos à minha imagem.”

E então compreendemos sua angústia e a nossa: temos mesmo muitas almas desencontradas que nos habitam em um espaço-tempo que nos confunde, nos desafia, nos faz rir e chorar... Nossas almas, diz ele, “Deliram dentro de mim,/Querem mudar de lugar,/Cada uma quer uma coisa,/Nunca mais tenho sossego,/Ó Deus, se existis, juntai/Minhas almas desencontradas.”

Esse é o sossego que verdadeiramente queremos: unir nossas almas desencontradas, marchar por um caminho lúcido em busca da diferença que nos fará a cada dia mais semelhantes. É a literatura, a poesia, mais uma vez, nos guiando por insólitos caminhos, abraçando nossas muitas almas...

E o “poeta fingidor finge tão completamente que chega a fingir que é dor , a dor que deveras sente...” Bendita poesia, benditos sejam todos os poetas!

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