Cuidado, celular!

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Com a alma parada diante da Casa Polo, atenta ao movimento lá na Farmácia Normal, meu corpo, com passos automáticos atravessa a rua de uma cidade que não mais há. Alguma coisa, porém, insiste, obriga meus olhos a procurarem coreto e caramanchões que, faz muito, viraram Hiroshima.

De repente sou acordado por cena só de ternura feita: uma menininha de cerca de três anos, revela esforço para acompanhar a caminhada ligeira de uma mulher que empurra um carrinho de bebê, enquanto fala ao telefone celular.

A criança me encanta e penaliza. Apesar do esforço, tem muita dificuldade para acompanhar a mulher. E duas coisas concorrem para isso: seus passos são miúdos e sua atenção se divide entre o caminho e as novidades que a cercam - criança chorando, buzina de carro, música acima de oitenta decibéis, mão estendida de pedinte, megafone apregoando vantagens...

Súbito, defronte à loja Lapidin, obstáculo freia o carrinho de bebê. É uma enorme lâmpada vermelha, informando que os pedestres devem dar preferência aos veículos. O vermelho imobiliza mulher e carrinho, mas não emudece a comunicação telefônica.

Aposentado para tantas coisas, sobram-me tempo e disposição para registrar as minudências.

A parada súbita das pessoas, quase faz a criança trombar na mulher e no carrinho. Todavia, o quase acidente passa desapercebido pela mulher cuja atenção está concentrada na conversa.

A mente e os olhos da criança, divorciados da conversa de adultos, passeiam. Primeiramente, eles atentam para o cachorro que dorme na calçada. A menina se aproxima, faz menção de passar a mãozinha pela sua cabeça, mas recolhe-a depressa, ao perceber que o animal abriu os olhos. Vê, então, pombinhos ciscando migalhas. Corre em sua direção, tenta passar a mão em suas penas. Suas tentativas são frustradas por simples movimentos dos pássaros acostumados com o passar incessante dos homens.

Enquanto isso, no mundo dos adultos, a lâmpada vermelha é substituída por outra, da cor da esperança. As pessoas que se aglomeravam perto de mim e da criança, atravessam a Rua Monsenhor Rosa, a mulher do carrinho é esperta, já está quase defronte o edifício Esmeralda. É quando percebe a ausência da menina. Sem desligar o telefone, dá rápida meia-volta, gritando:

- Ritinha, excomungada...Não falei pra você ficar perto de mim?

O pavor cobre o rosto da garotinha que começa a andar, ligeira, em direção à rua e ao grito, lá na outra margem.

Quixote desajeitado, posto as pernas diante da criança que não sabe que o sinal novamente se avermelhou. Abro espaço quando o verde aparece novamente, e a menininha atravessa, lépida, a rua, em direção ao safanão e às promessas de castigo da mãe. Eu, que devagar seguira os passos, ouço a mulher tranqüilizando seu ouvinte.

- Não foi nada não... Foi a desmiolada da Ritinha...

Sento-me em banco da Praça Barão, matuto.

- Ah, com lança e Dulcineia, eu iria combater todos esses moinhos modernos.

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