O mar de Regina

Por: Maria Luiza Salomão

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O mar reflete. Mil cores tem o mar a refletir o céu. O mar permanece. Mil navios vogam em sua superfície ou naufragam. O mar tem voz, marulha o mar, e silencia. O mar escuta mil vozes, da brisa, dos trovões, dos marinheiros, dos motores possantes dos navios. O mar escuta mil entranhas, que borbulham Vida, maremotam vidas. O mar devaneia mil sereias, mil tesouros perdidos. O mar sonha mil presságios profundos, guarda mil cores nas profundezas. O mar azula qualquer impureza, acolhendo-a em câmara lenta. O mar dissolve pétreas convicções, o mar se apossa do estrangeiro que vem a ferro e fogo e lhe corrói lentamente as formas. O mar conquista e enamora quem o sonha e canta.

No livro Mar em canto, 2012, poesias, vamos mergulhar no mar de Regina. Não se espantem se, pós-leitura, se sentirem batizados, ungidos em azul, comungando o inefável.

No mar de Regina tem “sonho azul”, “encontro com Rio São Francisco”, “prece”, “a hora”, “passeando eras”, “forças”, “comunhão” (...e absorver pedras enraizadas no ar/e lavar asas manchadas de medo/e ouvir palavras que espreitam/ portas entreabertas para o sempre/ e aprender a linguagem do universo), “minha pátria”(...quem delimitou a minha pátria? Quem cercou o meu ser?/ quem carimbou meu coração?...), “porto Prata”, “releitura” (...um rio de caracóis uruguaiando pássaros coloridos), “lendo as águas”, “mare nostrum”, “outra face”, “regresso” (...abro os olhos para uma manhã brasil...)

Regina, ao mar, ressoa “meu canto”(nas águas ermas das minhas noites/vaga uma sereia triste...), “mar interior”, “motivo” (porque sonho distâncias/navego asas de água), “balanço”, “gotas de noite”, “aceno de tempo”, “almar”, “olhares” (no mar só podemos encontrar nosso azul/o pôr-de-sol tem de encanto o que em cada um fica de todos os fins/ e as estrelas todas que brilham em nossos olhos/ são as únicas a nos conduzir ao infinito) , “manhã no mar’, “olhos d´água”(minha alma vê e se cala/olhos marejados /aguardam sonhos), “devaneio” (bebo medos e desejos/sou mar antigo cheio de segredos/rotas tormentosas por vencer), “mar e ânsias”, “acenos”, “vogando” (meu coração entardecido/sem forças para remar/solta-se sobre as águas/ e apenas se deixa levar).

Regina no mar, e pode-se “almar” olho, e olho e olho, sete vezes olho o mar, cheiro, cheiro duas vezes o mar, gosto uma vez (em morte e em vida)...Marulha Regina: ouço... sonho... digo... quero ver... quero saber... quero ouvir... quero beber... quero dizer o mar...

Tudo nos leva ao mar de Regina, suas oceânicas palavras empurram o mar adentro da alma nossa, há que naufragar e emergir, santificados pelo dom de existir.

Regina Marinheira só, a semear sal, flores de tempo, sonhos infinitos, a colher silêncios do vento, bem dizer marulhos, a soltar velas sonhar mar, ela busca amar...

Quero vagar e vogar em suas palavras encantadas. Ainda e mais. Bendita seja, em prosa e canto.

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