Aconteceu numa quaresma

Por: Everton de Paula

Não sei mais o ano, mas deveria estar com 14 ou 15 de idade. Era uma manhã de sexta-feira, uma semana antes da Páscoa. Nos ares, o prenúncio de outono numa brisa fresca e suave. O que não era suave era aquela aula de História sobre a Mesopotâmia que não acabava nunca. A aula, é claro. Logo viria o recreio das 10 horas. Foi então que recebi um bilhete jogado na minha carteira. Disfarcei os gestos e o abri. O convite: “Vamos enforcar as duas últimas?” Olhei para trás e encontrei, cravados em mim, os olhares muito abertos de Tião Miranda e Godofredo. Fiz que sim com a cabeça. Mais um pouco do Egito antigo e eis-nos no pátio.

- Mas como vamos sair?

- Vamos para a quadra e pulamos o portão.

- E as cadernetas?

- Já falei com André ele pega pra nós e devolve amanhã.

- O portão...

- É baixo, dá pra pular.

Não sei quem disse quais frases, nem se eram exatamente essas, mas a idéia ficou em minha memória porque o desenrolar desta ação seria medonha. Ao menos para nossas idades.

Pronto eis-nos livres de novo, só que agora fora dos muros da escola. Um misto de vitória e imensa culpa inconfessável pelo delito. Era preciso nos afastar uns quarteirões e mudar a paisagem. Pensado e feito. Faltava o que fazer, para onde ir. Eu não tirava da cabeça a imagem de seu Hilário, professor de Matemática, olhando minha carteira vazia, e vazias também as dos meus colegas.

- Vamos subir a torre da igreja matriz? Dizem que tem morcegos!

- Não, é Quaresma. Deve ser pecado.

- Qualquer coisa, menos voltar para casa antes do meio-dia.

- Se é pra ser qualquer coisa, que tal um passeio no cemitério?

- ...

- ...

- Tá bom, tá bom, só falei por falar, não precisam me olhar desse jeito.

- Não, a idéia é boa, mas o que fazer no cemitério?

- Não sei assim agora, mas cemitério de manhã é melhor que aula de Matemática.

Concordaram plenamente.

A estupidez do programa era muito grande, mas não maior que nossa disposição e vontade do encontro com os mistérios. Não sei explicar o porquê dessas preferências: a idade? A cidade pequena sem atrativos? As sugestões dos gibis e dos filmes de aventuras passados nas matinês? O diferente e inusitado? Tudo junto, acho.

Aqueles materiais escolares em nossas mãos, o uniforme... Meu Deus, como denunciavam a nossa indisciplina! Parecia que todos os olhares dos adultos, nas calçadas, praças e ruas, olhavam para nós com ar de denúncia e reprovação.

Chegamos ao campo santo. Entramos. Logo após o portão de frente, os túmulos mais suntuosos. Na medida em que íamos descendo o corredor central, as sepulturas iam se tornando mais simples, caiadas, algumas com aquela plaquetinha azul em que se lia :”Perpétua”. Eu não sabia o significado da palavra. Não poderia ser nome da pessoa enterrada ali... Seriam Perpétuas demais!

Godofredo deu o aviso:

- Vejam: um túmulo aberto!

Era uma sepultura acima do solo, aberta, vazia... Estaria esperando um corpo ou teria esvaziado outro? Os três palermas ficaram diante do buraco, daquele vazio na horizontal. Dada a claridade do dia, não conseguíamos enxergar o fundo, apenas a pequena entrada.

É claro, alguém teria que dizer:

- Quem tem coragem de entrar sozinho lá dentro?

Não houve resposta. Sei apenas que eu trazia uma jaqueta nos braços. Tião Miranda pegou-a num átimo e jogou-a dentro da sepultura vazia. Pelo ruído que fez, deu para perceber que a jaqueta foi parar no fundo escuro. Agora eu iria lá à força ou teria que explicar um desaparecimento pouco provável, em casa, de minha jaqueta.

- E agora zoavam meus companheiros você não é o degas? Mostra que é homem e vai lá buscar a sua jaquetinha azul!

Era um desafio e tanto. Respirei fundo, agachei-me e principiei a entrar na sepultura. Se não fosse nunca mais veria minha blusa, presente de madrinha. Pior: passaria por um maricas. Quando pus a mão no chão, Gogofredo gritou baixinho:

- Lá vem o coveiro. Vamos sair daqui de fininho. Rápido!

O homem da pá não percebeu nada. Saímos do cemitério. Os dois rindo, e eu amargando uma jaqueta perdida. Voltamos às nossas casas. Ninguém notou nem perguntou nada. Passou a tarde, bem devagarzinho. Noite sem-graça, salvo o “Balança Mas Não Cai” da Rádio Nacional. Fui pra cama. Desconforto. E era Quaresma!

Na manhã seguinte, disse que iria ao Clube dos Bagres. Que nada! Sozinho, me dirigi ao cemitério com o firme propósito de resgatar a jaqueta.

Quando me aproximei da sepultura, o susto diante do inesperado: estavam justamente ali, naquele exato momento, sepultando um caixão que empurraria e esconderia, perpetuamente, a minha vestimenta. Não dei um pio, mas lamentei bastante a falta de sorte. Compadeci-me da velha senhora que chorava. Quase que eu chorei também, mas por motivo diferente.

Fui para casa. Veio a Semana Santa. Sexta-Feira da Paixão. Páscoa.

Na fila do confessionário, domingo pela manhã, o dilema: contar ou não ao padre o ocorrido?

No momento da confissão, disse apenas que eu havia jogado umas pedrinhas numa sepultura vazia; o padre, sonolento, asseverou-me não sei bem o quê e me safei do fogo do inferno, ou da brasa do purgatório, com 5 Ave-Marias e 1 Pai Nosso.

Voltei mais aliviado para casa.

O que restou? O fato de hoje eu saber que há restos mortais de alguém junto à minha jaqueta, numa sepultura do Cemitério da Saudade, em Franca. Sei-lhe o nome. Conheço a família, mas nunca revelei a ninguém... E nem o farei. O que mais me incomoda é que havia no bolso da jaqueta uma identificação escolar minha, da UESF (União dos Estudantes Secundários de Franca). Lá no fundo da sepultura, até hoje, jaz minha foto com dois olhos abertos... E assustados, acho eu.

Tião Miranda morreu.

Godofredo morreu.

Só eu e você, leitor, sabemos desse ocorrido. Caluda!

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