Splendor maris, splendor verbis

Por: Sônia Machiavelli

205320

A leitura do último livro de Regina Bastianini, Mar em canto, lançado no final do ano passado, me remeteu em espiral ascendente (talvez pela sugestão do pentagrama desenhado na bonita capa azul, talvez pela função de palavra-chave assumida por esta cor em sua poética) para uns versos do nicaraguense Rubén Dario, cujo primeiro livro se chama Azul e marcou o início das tendências modernistas nas letras hispânicas. Diz ele: “Canto e conto é a poesia/ canta-se viva história/ contando sua melodia”.

Muito além de contar cantando e cantar contando as águas de rios e mares em suas expressões conotativas, todos os versos eufônicos, aliterados, plásticos e sinestésicos de Regina cumprem em primeiro lugar a exigência de traduzir um verdadeiro sentimento poético. Ou seja, aquele que revela a poesia no mesmo diapasão dos gregos que a definiam como tudo aquilo que dá à luz, que faz nascer, que engendra, que retira de um lugar estático e conduz a um espaço dinâmico. A mais precisa tradução para poiesis é movimento.

Não por acaso, é o movimento das águas doces e salgadas que inspira à Regina Bastianini os poemas deste livro dividido conceitualmente em três partes: Dias a bordo, A bordo dos dias, Almar. O texto de apresentação, O sonho azul, constrói-se em prosa lírica e traduz com múltiplos azuis a paisagem anímica onde foram concebidos os poemas. Empregando a técnica da semeadura e colheita, a autora dissemina para consideração do leitor muitos tons, desde o “azul tormento dos desejos” ao “azul narcose da unicidade consciente de todas as coisas” para colher e reunir todos eles no “azul promessa de infinitos com uns vagos tons de azul doído de saudade”. Futuro e passado tornados presente pela força da palavra poética, aqui tangenciada pelo laivo da esperança.

Em Dias a bordo, a poeta enquanto sujeito demonstra algum distanciamento que lhe possibilita falar do objeto, representado pelas águas de rios e mares, e fecha o conjunto com o magnífico Despedida, cujo primeiro verso é bastante assertivo: “As despedidas são para o que fica.” Em seguida, anunciando que emprestará do mar olhos, ouvidos e alma, avisa que o quer fazer para, entre outras coisas, “...tingir de água/ As asas de sonho/ Da Poesia e da Beleza.”

A bordo dos dias, segunda parte, evidencia uma aproximação, entre sujeito e objeto, que começa na comparação e avança irrecorrível para a identificação quando em Devaneio a poeta diz: “Sou mar antigo cheio de segredos/ Rotas tormentosas por vencer”.

Já Almar, expressivo neologismo que reuniu dois substantivos, alma e mar, plasmados em infinitivo verbal, fixa a similaridade entre águas oceânicas e palavras poéticas que atingem seu ponto máximo de confluência em “Olho o mar/ Alma e porta do mundo/ Útero da Terra/ Pia batismal de sonhos/ Pátena de desejos/ Cofre de anseios/ Grito de palavras impossíveis/ Poesia.”

Sob este prisma, o da integração sujeito/objeto/poesia- ou poeta/mar/ verbo, os tipos de imagens e referências aquáticas que alimentam os versos nos autorizam a dizer que Regina Bastianini percebe o mar como metáfora da própria palavra poética e vice-versa. Mistério, profundidade, grandeza, abrangência e vigor são atributos das paisagens líquidas pertinentes a um mapa físico e à certa cartografia emocional. Com a alma sempre em disponibilidade, pronta a clarificar a mensagem que inunda o coração, a poeta traduz em interstícios o vislumbre que anseia fixar, embora com a certeza desconfortável de que em toda palavra viceja o resíduo de algo que ficou por comunicar. Por isso a poesia é, como o mar, “ gritos de palavras impossíveis.”

Poeta plenamente amadurecida que se expressa em formas diversas, Regina elege neste Mar em canto ora quadras clássicas marcadas pela rima, ora versos de rimas brancas em estrofes de tamanhos variáveis . Mas a poesia que lemos, auscultamos, ouvimos, sentimos e admiramos nos seus poemas não se encontra apenas nos pensamentos que repercutem, nas coisas que cintilam, nas palavras que vibram, na filosofia que perscruta, na descrição que impacta ou na sonoridade que seduz. A poesia está na inflexão de um olhar que intui a existência humana como planos desdobráveis, surpreendentes, sem contenção e em movimento constante como os oceanos. Nesta direção parece ter caminhado também a leitura do escritor Caio Porfírio Carneiro, no prefácio onde registra que “as águas, que desbordam até para o geográfico e navegante, transmudam-se em significações maiores e inalcançáveis...”

Atenta ao fluir das águas, do tempo, das emoções, da vida, e revelando soberbo domínio sobre a linguagem, Regina Bastianini conta o splendor maris e canta o splendor verbis nestes poemas onde nenhuma palavra naufraga e todas navegam reunidas e percucientes rumo ao cais da Transcendência.

LUTAS E VITÓRIAS

Regina H. Bastianini

Nascida em família de lavradores, Regina Helena Bastianini viveu na zona rural de Cristais Paulista até os dez anos. Fez o curso primário em escolas rurais e o terminou no Grupo Escolar de Restinga. Já em Franca, cursou até a quinta série no IETC, concluindo o ginásio através do exame de Madureza. Dos 10 aos 15 anos trabalhou como doméstica; depois, como sapateira em pequenas fábricas e na Samello,

Concluiu o segundo grau em 1973 no Colégio Estadual David Carneiro Ewbank. Trabalhou neste período na CTBC. Formou-se em Letras ( Português/Francês) pela Unesp em 1977. Um ano antes já estava no Banco do Brasil, onde permaneceu até 1987. Foi professora da Fundação Educacional da Alta Mogiana, de 1986 a 1991. Aprovada em concurso em 1995, não tomou posse no cargo, preferindo dar continuidade a seu trabalho no Curso de Português Luiz Cruz. Lecionou no Curso de Letras da Unifran. Participou da fundação do PT em Franca. Seu nome está entre os que construíram as bases do Grupo Veredas, onde prestou trabalho voluntário na área de educação. Durante muitos anos colaborou com o caderno literário do jornal Comércio da Franca.

É membro da UBE- União Brasileira de Escritores. Seu nome é verbete da Enciclopédia da Literatura Brasileira, organizada por Afrânio Coutinho.

Seu primeiro livro, Eu e o Mundo, foi publicado em 1990; o segundo, Entrenós, é de 2003. O ano de 2006 trouxe Contraponto. O de 2009, No Tempo dos Lambaris Sagrados. Mar em canto, resenhado ao lado, foi lançado em 2012.

Serviço
Título: Mar em canto
Autor: Regina Helena Bastianini
Editora: Ribeirão Gráfica

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras