Vó Naninha - 2ª parte

Por: Ronaldo Silva

205321

Conforme prometido em edição anterior, sigo contando mais um capítulo da história de minha Vó Naninha. Na realidade, para contar o que desejo, tenho de recuar ainda mais no tempo, evocando o episódio ocorrido envolvendo uma família da cidade de Ituverava, lá pelos anos um mil novecentos e vinte e tantos, quando ainda fazia pouco mais de quarenta anos que ela deixara de ser o Distrito de Paz de Nossa Senhora do Carmo da Franca do Imperador.

A jovem Ana, em tenra idade, como parecia ser típico no início do século dezenove, antes dos dezessete anos já estava noiva de um jovem rapaz ituveravense, de nome José Paulo. Ele, jovem de família bem posicionada na cidade, enviado a Ribeirão Preto para os estudos superiores, dedicava à sua noiva protestos de muita estima e amor verdadeiro, no que era plenamente correspondido.

Assim que José Paulo concluísse os estudos, o casamento era certo para os jovens enamorados, com ambas as famílias vislumbrando um futuro doce para seus rebentos, que pareciam mesmo ter nascido um para o outro.

Um acontecimento insólito, entretanto, viria a alterar a trajetória de maneira definitiva.

Como ambas as famílias desfrutavam de aprazível condição financeira e posição social, era natural que tivessem acesso relativamente fácil a certas modernidades. E foi graças a isso que o jovem noivo, certo dia, apareceu na casa dos pais de Ana com um presente diferente, totalmente inédito para ela: uma caixa com esmaltes dos mais lindos que certamente as mulheres refinadas da sociedade e só elas já usavam.

A sós na sala da casa por um breve momento, visto que os namoros de então eram vigiados com rigor, José Paulo entregou o presente e apressou-se em justificar à sua amada noiva que ele desejava vê-la sempre bem vestida e bem cuidada, tanto quanto as mais finas moças de seu tempo. As unhas pintadas seriam parte desse cuidado.

Contudo, neste momento, entra na sala a mãe da jovem noiva e, olhos arregalados e expressão de desagrado extremo, esconjura o jovem dizendo categoricamente que sua filha jamais usaria pintura nas unhas ou batom, que aquilo era “coisa de puta”, ciente de que o moço zombava de sua inocente filha.

O jovem José Paulo, percebendo a ignorância e o preconceito de sua futura sogra em relação ao assunto, levanta-se e reage com energia, tentando explicar que as singelas maquiagens com que presenteara a noiva não eram depreciativas nem vulgares, mas uma tendência da modernidade. Foi ignorado e os protestos veementes da minha bisavó o ofenderam. Ele revidou, já alterado, perguntando a ela como é que conhecia as maquiagens das putas. Quis saber se, por acaso, ela já tinha estado na casa das mulheres da vida.

Aí o caldo entornou de vez, necessitando da intervenção do pai da noiva, meu bisavô, que acorreu à sala, atraído pela discussão e troca de ofensas. E foi meu bisavô que, mais ponderado, pediu gentilmente que o noivo se afastasse e deixasse as coisas esfriarem um pouco.

O noivo foi embora, certamente abatido e transtornado, calculando o desastre provocado pela atitude intempestiva da sogra, crente de que seu futuro ao lado da noiva amada corria sério risco.

De fato, dias depois ele receberia uma singela carta da jovem Ana, solicitando o cancelamento do compromisso. Dentro do envelope, ia também a aliança de noivado.

Segundo conta minha mãe, em desabafo muitos anos depois, um irmão da então jovem Ana, Justiniano, portanto meu tio avô, confessou que, pressionado pela mãe, obrigara a jovem Ana a escrever a carta que colocava ponto final à sua história de amor.

A jovem Ana, depois do noivado desfeito, conheceu outro rapaz, Lamartine, cujo irmão João era viúvo de uma de suas irmãs. Namoraram e noivaram.

Em 1933 minha Vó Naninha, casou-se com aquele que viria a ser seu marido até a morte, o jovem Lamartine Coelho, pra mim simplesmente o Vô Lamartine.

Algum tempo depois, já com a filha Vanda nos braços, chegou a ser vista pelo apaixonado José Paulo. Aturdido pelo amor e inconformado pelo destino, ele teria chegado a enviar bilhete para sua amada, propondo que ela deixasse a vida de casada e se partisse em sua companhia. Ele a assumiria e também à criança recém nascida.

Ao que se sabe, mesmo ainda nutrindo sentimento pelo ex-noivo, minha avó jamais respondeu ao bilhete, deixando claro que honraria seu casamento.

Mais de trinta anos passados, quando residia com a família em São Joaquim da Barra, minha avó olhando furtivamente pela janela reconheceu o seu amor do passado, que transitava pela calçada usando uma bengala. Tinha graves problemas na visão, naquela ocasião. Ela chamou minha mãe e mostrou o distinto senhor que passava. Jamais esqueceria dele.

José Paulo, ao que se sabe, casou-se. Mas seu casamento foi mal sucedido e ele se separou. Teve uma filha, fruto dessa união. Certamente, deve ter tido netos. Não o sei. Fato é que nunca mais se casou, tento vivido seus dias na solidão.

Hoje, analisando com mais complacência a história da Vó Naninha, creio que ela também viveu sua solidão até os últimos dias, rodeada dos filhos, netos e bisnetos.

Confesso que meu coração dói pelo fato de eu não poder voltar no tempo e agir com mais misericórdia para com ela, que certamente guardava muito mais mágoas do que eu poderia prever naqueles anos da minha adolescência, quando ela se foi.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras