Michilim

Por: Luiz Cruz de Oliveira

O motorista sobe a Rua Saldanha Marinho em direção à praça central. Na esquina da Rua Floriano Peixoto, para, olha para a esquerda, atento à possível vinda de veículos na via preferencial. Não vê veículo algum, mas o carro permanece em marcha-lenta, enquanto olhos do motorista se demoram num velho que parece hesitar na calçada, à esquerda.

O som de uma buzina o traz de volta ao trânsito cada dia mais intenso. Ele acelera, cruza a rua, estaciona ao lado da calçada, liberando a rua para os apressados.

Desce, atravessa novamente a Rua Floriano Peixoto, aproxima-se do homem velho.

- Bom dia, Sô Chico.

- Hein? O quê?

- Eu ia passando, reconheci o senhor. Bom dia.

- Ah, bom dia. Mas, peço desculpa, eu ando com a vista cansada, não estou reconhecendo o jovem.

- Mas é claro, faz muito tempo que a gente não se encontra. Sou o Zé Luiz.

- Zé Luiz?

- É, o Zé Luiz Marangoni.

- Nossa, é você mesmo. Conheci o seu pai, Comprei guarda-roupa, comprei mesa dele, lá na oficina, na Praça da Estação.

- Ah, agora o senhor lembrou, né?

- Lembrei, sim. Eu tenho uma cabeça muito boa. Você jogava bola lá no internacional, você era ponta-esquerda, não era?

- Mas o senhor está longe de casa, Sô Chico.

- Ah, sabe o que é? Eu lembrei da fábrica de elástico, vim ver como é que está. Mas parece que não tem mais fábrica não.

- Ih! Sô Chico, faz muito tempo que fechou.

- Que pena. Ficava aqui nesta esquina, era do senhor Antônio Augusto Nunes de Souza. Quando eu trabalhava na Prefeitura, ele virou Secretário de Governo.

- Faz tempo demais, Sô Chico.

— Mas eu lembro de tudo. Tenho uma cabeça muito boa. A meninada vinha aqui, pegava as sobras de borracha, ajeitava com canivete, com faca, até ficar quase redonda. Aí, costuravam numa meia de pano, virava bola. Eles chamavam de michilim. Pulava mais que cabrito.

- Eu não sei é pra que servia o elástico.

- Ah, era pra fazer goma pra fazer botina. De primeiro não tinha zíper, nem nas braguilhas das calças. Era só botão. Agora, tem zíper na calça, na bota, e tudo que é coisa. Qual é mesmo a graça do jovem?

- Zé Luiz Marangoni.

- Ah, eu me lembro de você. Você jogava futebol, era ponta-esquerda, não era? Sabe que eu conheci o seu pai, o senhor Avelino? Bem, agora eu tenho que ir, eu moro longe, lá atrás da linha da Mogiana. Até qualquer hora, meu jovem.

- Espere, eu dou uma carona pro senhor.

- Obrigado, meu jovem, mas eu prefiro ir andando. O coração do homem está nas pernas, preciso andar bastante. Qual é mesmo a sua graça, jovem?

José Luiz responde outra vez, e mais uma vez ouve os fragmentos das lembranças do velho, e se vai.

Pelo retrovisor, observa-o atravessando a rua.

Chico Franco caminha alguns metros, volta-se, examina, com olhos embaçados, o prédio antigo. Depois, torna a caminhar em direção à matriz de Nossa Senhora da Conceição.

Olhares intrigantes e interrogativos se debruçam sobre a indumentária do velho: chapéu branco, terno branco, gravata cinza, sapatos pretos muito surrados, impróprios para manhã e verão tão quentes.

Indiferente a olhos e a julgamentos, a bengala repete o refrão toc-toc de uma música triste que fala de tarde, de quase noite.

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