Jiló, um homem do bem

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

O amargor, presente na referência ao seu nome, não se compatibilizava com a doçura de sua pessoa e com a alma de cantor que revelava. Tinha, também, uns veios artísticos ligados à pintura, pois adotou a profissão de pintor de paredes para a sobrevivência. Nos anos cinquenta, na zona rural, interior de Minas Gerais onde vivia, era disputado pelos moradores que precisavam pintar ou retocar suas casas. Combinado o serviço, ia apanhar com eles, nos barrancos sulcados pela chuva, à beira dos córregos, onde uma areia branca dormia em seus leitos, pedras de argila de cores vermelha, preta, ocre com as quais preparava as tintas, misturando-as com água e cal. Conseguia primorosos tons para o seu trabalho com esta combinação que dava um bom efeito e permanecia com aspecto de novo por muito tempo.

Jiló era um homem desprendido, não fazia questão de dinheiro, não tinha os lucros como objetivo. Estava sempre pronto para servir. Nascido e criado lá no vilarejo, morava só, em uma pequena casa, nem documentos tinha. O importante para ele era viver o presente, ter amigos, ser considerado e não se separar do seu violão, que em noites solitárias era o seu companheiro. Não faltavam estrelas, no céu negro que cobria aquela região montanhosa, para lhe servir de inspiração. Ao nascer do sol, o canto dos pássaros lhe fornecia a melodia que precisava para compor suas canções. Estas eram ensinadas aos meninos para quem dava instruções de violão. Rapaduras, galinhas, queijos eram as pagas que recebia, além da eterna gratidão desses garotos que se lembravam dele por toda vida. Costumava contar aos seus aprendizes histórias da infância como o triste dia em que a avó morrera e sua mãe lhe pedira que guardasse o violão na tulha até o luto passar. Um ano sem cantar e sem poder tocar. Jiló chorava de saudades da avó e mais ainda do seu violão... Quando o pegou de volta, este tinha se descolado com a ação do tempo. Demorou muitos e muitos anos para conseguir outro.

Uma pessoa verdadeira, natural, ainda não influenciada pelo progresso e competição da sociedade. Não conheceu a vida nas cidades, não se submeteu às regras dos homens. O cheiro do mato era seu perfume, nas águas límpidas dos riachos se banhava, saciava-se com as frutas abundantes que se anunciavam, espontaneamente, durante o ano inteiro; seu colchão era de palha, o sono era suave. Amigo da terra, irmão do Sol e da Lua, os pássaros eram seus companheiros, a natureza sua provedora. Difícil imaginar este homem em outro lugar.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras