Musicalidade Marciana

Por: Nathan Oliveira

‘Sabe,tem vezes que eu acordo tão... Nine Inch Nails. Mas daquele jeito mais triste, mais melancólico e distante da realidade, mais conhecido como o álbum ‘The Still’, deles. Eu tento correr, tento sentir o vento no meu rosto que Led Zeppelin me proporciona. Parece que ‘Ramble On’ vem para me dizer que eu não devo me preocupar com nada.

Acordo. Sinto meus olhos formigarem e os abro, deitado num imaginário campo vasto, como se estivesse tomado pelo violão de ‘Look Into the Sun’, de Jethro Tull. Parece que Ian Anderson invadiu minha mente e instalou uma bomba de orgasmo mental. Abraço pessoas invisíveis e a The Go Find faz uma festa dentro de meus sorrisos, com um baixo de cordas novas.

Lavo meu rosto e sinto alguém sussurrar ao meu ouvido. The Corrs tem D’Arcy Wretzky, do Smashing Pumpkins, como baixista. Elas estão alisando meu rosto e me dizendo que eu devo relaxar, que logo as dores nas costas vão passar, que eu vou esquecer pessoas do passado e que minha mãe está logo ali.

Suspiro e me lembro que um dia fui bem novinho, bem pequeno. Jerry Garcia, vocalista do Grateful Dead, bagunça meu cabelo. Tenho 7 anos de idade e ele me pergunta se sei tocar violão. Rio e corro. Dou alguns passos e me lembro das contas para pagar. Deixo de sorrir. Sorrio de novo. ‘É passado’. Estou novamente no presente e Jerry acena detrás da nuvem macia.

Abro a geladeira e pego uma maçã. Billy Corgan, vocalista do Smashing Pumpkins, rouba-a de mim e dá uma risada que me lembra um velho amigo... que nunca tive, mas sempre vivi ao lado. Ele diz que aquilo é muito mais que uma maçã, dando uma mordida na mesma e ajeitando suas calças curtas, usando sapatos de bico fino. Ele limpa o canto da boca e cutuca meu ombro, dando um leve soco. ‘Eu gostaria de propôr um brinde. A mim mesmo, porque você está aqui, e você é meu fã. Logo, sou seu fã também. Mas quer saber? É perda de tempo. Acho que estou afim de comer melão, mas quem disse que minha eterna tristeza deixa...?’. Rio. Ele ri também

Billy pega o avião que voa bem alto, muito alto. Tento acompanhá-lo do chão, ali no quintal, mas tropeço em ‘Ya’ll Want a Single’, do Korn, e de repente estou dentro de uma batalha contra hipócritas. Quando me dou conta, estou sobre uma pilha de discos do Rage Against the Machine. Então me torno a música ‘Know Your Enemy’! Puta merda, nunca senti esse poder. Dou um tapa na cara da sociedade e Tom Morello faz o sinal da paz pra mim. Abre uma lata de Coca-Cola e joga para o alto. ‘Todas as bruxas... você sabe’.

Passo a mão pelo rosto e estou novamente no meu mundo surrealmente real. Ele existe? Claro, é a realidade que enxergo. Não é algo inventado. Um amigo me indica a música ‘Like Knives’, do City and Colour. Ando no quintal, com a música tocando. Abraço a casinha da minha falecida boxer e sorrio. Não sei se choro ouvindo a música, ou se sorrio, ouvindo meu coração e pensamentos. Eric Clapton passa por mim e me ignora. Ele volta e pega no meu braço, levando-me para o blues. Lá, ele me dá uma bronca por não investir mais nisso, mas acaba rindo quando comento com ele sobre Jeff Beck e Jimmy Page. Ele me entrega uma guitarra que tem a assinatura dele e diz para eu levá-la para o Jack White. Ele está pintando, com uma tinta branca, uma casa que era vermelha, vestido como um lenhador. Meg White está segurando a escada para ele. Ela sorri para mim e me entrega uma bala que nunca perde o gosto. Nós tomamos uma cerveja gelada, com sabor de framboesa, e lhes entrego a guitarra.

Pulo para minha realidade surreal novamente, vendo pessoas caminhando na rua, mortas por dentro, desanimadas por fora. Talvez faltasse um pouco de Michael Jackson nelas, mas elas nem se lembram mais de suas músicas, mas se lembram apenas de um cara que fez inúmeras plásticas e ficou deformado.

Scott Weiland chega derrapando seu conversível, que tocava ‘Heaven & Hot Rods’, parando em frente da minha casa. Ele abre a porta do carro e me convida para entrar, para darmos uma volta e ouvir um rock ‘n’ roll. Eu pergunto se deveria mesmo, porque tenho mais coisas para fazer. Ele me diz:

- ‘Nunca se diz NÃO para a música’.

Isso ainda não chegou nem no começo da história. Acordo. Ainda estou dormindo. ‘Nunca se diz NÃO para a música’. Paro e penso.

- ‘Sim’, sussurro.

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