O porão

Por: Everton de Paula

A casa era velha, assobradada. Lá em cima, no beiral de alvenaria junto à calha, a data da construção desenhada em algarismos arábicos : 1913. As janelas eram de madeira maciça; rangiam ao serem fechadas. Se abertas e as vidraças suspensas, uma fina cortina branca, transparente, bailava ao gosto da brisa de outono, desafiando a quem por ali passasse o que se falava, fazia ou vivia em seus cômodos escuros, bafientos.

Velha era a calçada de lajes rosadas, irregulares, unidas por argamassa que os meninos evitavam pisar : “Quem pisar no risco é filho de padre!”.

Velha era Dona Ofélia que ali morava sozinha, resmungando pelos cantos a solidão que doía e as preces que sua memória teimava em ir buscar no tempo em que desfilava, beatíssima, entre os altares laterais da igreja próxima, ostentando no peito a fita encarnada das Filhas de Maria.

A casa de Tino distanciava-se menos de 50 metros do sobrado. E à medida que as crianças do quarteirão iam crescendo durante as brincadeiras de rua, à noite, maior se tornava a curiosidade sobre o interior do casarão, e mais fantásticas tornavam-se as histórias que os pais inventavam para que ficassem longe da velha Ofélia, evitando, com isso, importuná-la. Mas essa era uma razão adulta, repelida pelo coletivo agitado da gurizada.

Por vezes, chegavam até à calçada. Pulando de laje em laje, tocavam com suas pequenas mãos as paredes frias, descascadas, denunciando antigas demãos de cal. Enfiavam as caras nos respiradouros do porão que davam para a rua. Os olhos nada enxergavam, mas o cheiro de mofo e o vento gelado que de lá emanavam aguçavam, ainda mais, a curiosidade de criança.

O outono avançava e a lua era cheia. Friozinho juntava a trinca na sarjeta, sob a fraca luz do poste. Uma luz amarelecida permanecia acesa no andar de cima que se sabia ser o quarto da velha. Entra um senhor baixo e careca. Depois o farmacêutico. Não se lembram de quem mais entrara ali, mas sim de que, no momento em que as mães gritavam seus nomes acompanhados do “já prá casa, é tarde!”, a notícia se espalhou: Dona Ofélia morreu! Dona Ofélia morreu !

Tino pouco sabe do que se passou durante a noite inteira, mas no seu quarto, olhos abertíssimos no escuro, imaginava como iam arrumar a velha. Subir as escadas com o caixão, arrumar seu corpo frágil e morto dentro dele. As velas, o cristo na parede, a estola roxa do padre por sobre a alva, a água benta espargida... Já não sabia se era imaginação ou se sonhava.

Acordou assustado. A mãe fazia barulhinhos na cozinha. A manhã passou rápida, com poucas idas à calçada. Quatro da tarde seguiam os parentes em cortejo fúnebre. O descuido das mães proporcionou que o pequeno bando se reunisse novamente na sarjeta, no mesmo lugar de sempre, para acompanhar com os olhos o início do primeiro enterro de suas vidas.

Romeu estava ao lado de Tino... E falava com admiração respeitosa da beleza do carro fúnebre, negro, luzidio sobo sol claríssimo da tarde.

O cortejo acabara de virar a esquina e o casarão os encarou, desafiador, com uma só janela aberta.

Uma semana se passara, mas tudo permanecia fechado na casa de Ofélia. Apenas um portãozinho, um gradil de flores murchas separava o alpendre de um pequeno corredor que ia terminar no fundo do quintal.

Tino e Romeu eram os mais atrevidos da turminha, talvez por serem os mais velhos. Romeu dez, o outro oito anos. Não havia mais como escapar: a exploração ao casarão fazia-se mais que necessária era o grande desafio, a grande aventura, maior do que todas pelas quais teria passado o Falcão Negro, o Tom Mix, o Fantasma, o Capitão Marvel.

Não dava mais para segurar a situação. Tinham lá seus truques. De poste em poste, dois dos seus se postavam atentos aos movimentos da rua. Se alguém se aproximasse, bastava o assobio denunciador... E então saberiam como agir, como disfarçar.

E foram, Tino e Romeu, destemidos, em direção à casa assobradada. E o primeiro território a ser explorado haveria de ser o porão, que habitava suas mentes cheias de fantasmas.

Tudo pronto. Ergueram-se da sarjeta, atravessaram a rua, pularam o pequeno portão de ferro, encadeado, do alpendre, subiram alguns degraus; passaram com certa facilidade pelo gradil, magros e pequenos que eram.

Estavam no corredor. A alta mangueira do quintal de terra bem que os avisou com seus acenos verdes e nervosos, sob o vento de outono. Bem-te-vi calou-se, mas não havia como desistir da aventura. Seria uma desonra para eles e para a trinca.

Uma porta de madeira corroída parecia ser a entrada para o porão. Não estava trancada, o que lhes custou apenas um empurrão a dois. Entraram e ficaram parados, até que seus olhos se acostumassem com a escuridão. O bafio já era familiar, o vento frio já haviam sentido na cara. Apenas o que de novo aparecia eram as formas que iam, aos poucos, se mostrando para eles. Tino escutava seu coração batendo forte e a respiração amedrontada de Romeu.

Pás, pedras, quadros, velas, trapos, chão úmido e frio... Uma ratazana desfilou lentamente perto de seus pés. Vontade de gritar e correr... Mas havia a trinca lá fora! Uma sela, um estribo, cordas, uma escada velha e torta... O que haveria sobre o armário?

Romeu sempre ia à frente, como a proteger o companheiro menor; afinal, era ele o mais velho, o mais experiente, o chefe. Um vento mais forte veio de fora e o farfalhar das folhas secas da mangueira sugeriram que voltassem.

Qual o quê!

Romeu subiu no primeiro degrau. O outro se foi encostando à escada, sem saber se para se proteger de algo ou se para firmá-la na subida do amigo.

O que se passou em seguida confunde-se com o que me contariam. Sei apenas que Romeu, lá do alto, sentiu que algum bicho, uma aranha, talvez, lhe passasse sobre a mão. Gritou e pulou... Lançou-se no ar. Mas não foi o primeiro grito de susto que perturbou, mas o seu segundo grito apavorado e longo, na escuridão, que ficou retido no mais recôndito esconderijo da pequena alma da testemunha Ao despencar, Romeu foi de bruço ao chão, de modo que o peso de seu corpo facilitou o corte profundo de velha foice em sua virilha direita.

Romeu não parava de gritar e chamar pela mãe. Tino, desesperado em seus oito anos, nada sabia fazer, a não ser apalpar seu companheiro e encharcar-se de sangue, o mesmo que lhe manchara as calças curtas de brim cáqui, assustando a todos quando apareceu na rua, pálido e mudo, arrastando seus pezinhos pela laje rosada, desrespeitando o combinado de não pisar na risca da calçada.

Súbito gritou :

- Mãe!!! Pai !!! Gente !!! O Romeu ... E não acabou o que queria dizer.

O pai de Romeu tinha uma alfaiataria de esquina, ali pertinho. Veio correndo. Enfiou-se no escuro no porão e de lá saiu com o filho de olhos fechados no colo. Quanto sangue! E quanta gente se juntou em frente ao casarão de Ofélia.

Corre-corre, Samdu, o ar que era pouco para o peito da gurizada.

A tarde tingia-se de rosa lá pelos altos da estação de trem.

Na manhã seguinte, o carro luzidio e negro da funerária voltava à rua.

Dentro dele, em sua última volta de carro, ia Romeu.

Com o tempo, as famílias passaram a se mudar dali pelas mais diversas razões.

Os pequenos cresceram. Tino formou-se em Medicina.

Às vezes passa pelo local. Os descendentes de Ofélia não venderam o imóvel, de modo que o casarão assobradado ainda ali permanece, morto, vazio, esquecido, maldito. Apenas a data 1913 parece um olho do passado a encarar quem conhece a história.

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