O homem que não sabia dizer "não"

Por: Sônia Machiavelli

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Título que não entrega o enredo, Amanhã Nunca Mais foge completamente ao lugar comum em que o cinema brasileiro se instalou nos últimos tempos, com histórias muito previsíveis, e poucas pinceladas na psicologia dos personagens. No filme em questão, Walter (Lázaro Ramos) é o protagonista aniquilado por circunstâncias externas e condições internas. Médico anestesista, classe média, negro e tímido, vive atrapalhado com as exigências do cotidiano. Quase ignorado no hospital, onde todos fazem pouco de sua especialidade, suporta um chefe que o desqualifica e colegas que o exploram. Sem tempo para a família, vai sendo relegado a um segundo plano por todos- desde a mulher Solange (Fernanda Machado),à sogra e à filha. Com este perfil de pessoa desconsiderada, pelos outros e por si mesmo, é mostrado no começo da história em meio a imagens expressivas do que se costuma chamar “praia de farofeiros”: frango dentro de tupperware, corpos estourando em biquínis, barracas arruinadas, falta de toaletes, coco na areia, cocô de cachorro, enfim, recortes que exibem pedaço de litoral nada paradisíaco.

Igualmente de forma realista, em nenhum momento edulcorada, o espectador verá, com o avançar da trama, ruas de São Paulo em toda sua feiura e degradação, com trânsito impeditivo que a todo momento impõe paradas forçadas. Dentro de seu carro, Walter, que prometeu levar o bolo de aniversário da filha, tenta cumprir a missão à qual se impôs, mais para agradar à mulher, que já anda saturada com a falta de atitude do marido, que à menina a quem parece de fato amar. Mas o deslocamento é difícil, o tráfego mostra-se tão emperrado como sua vida, ele precisa enfrentar muitos obstáculos para vencer o caminho que o separa de casa. Na noite escura, barulhenta e inviável de uma sexta-feira, deverá passar por provas representadas por tipos bizarros: a confeiteira lerda, o motoboy acidentado, a perplexa moradora de rua, o travesti inconveniente, a maluca embriagada, pessoas que o solicitam com veemência e a quem ele não consegue dizer “não”. São elas, principalmente, que acabam solapando seu desejo de entregar à mulher o bolo de aniversário na hora aprazada. O tom é de comédia, mas o espectador reage com riso nervoso.

Todos estes empecilhos representam pequenas estórias que, como num puzlle, se encaixam para mostrar, aos poucos e com clareza, o homem fragilizado, confuso, incapaz de se afirmar, mas não frouxo. Seus diversos “sins” são atos que o contrariam e o estressam profundamente, impossibilitando-o de ser quem realmente almeja. Mas esta noite difícil que o frustra a cada minuto, e leva ao espectador uma sensação de angústia, será definitiva para que ele se transforme. Ao chegar em casa e encontrá-la vazia, apenas com os restos do que foi uma festinha infantil órfã da peça principal (que ele carrega tristemente nas mãos) toma uma decisão importante : começa por dizer “não” ao seu superior no hospital onde nem o porteiro o chama de doutor.

O filme tem poucas fraquezas mas uma delas, evidente, deve ser creditada aos roteiristas (Márcio Arruda, Marcello Muller) que não esmiuçaram de forma mais plena a revanche final, pequena para o tamanho da ansiedade provocada no público. A catarse perfeita pediria mais que uma troca de ofensas, poderia ser algo, por exemplo, do tamanho da desforra do Capitão Nascimento sobre o político corrupto em Tropa de Elite 2, que, aliás, a Globo reprisou nesta semana. O público, identificado ou comovido com o personagem humilhado e ofendido, sairia da sessão mais aliviado. Fica a impressão de que houve pressa em finalizar o filme de 76 minutos.

Impossível não mencionar a trilha sonora ( André Abujamra e Márcio Nigro) e especialmente a canção Não, que Arnaldo Antunes, poeta imenso, compôs para o filme e canta enquanto os créditos vão deixando a tela: “Não/ Uma palavra pequena/ Mas muito mais obscena/ Do que qualquer palavrão/ Palavra chave de algema/ Já elimina o dilema/ Se você diz ‘porque não’// Palavra que não tem meio/ Já inicia no fim/ Como um reflexo no espelho/ de seu sinônimo sim// Dentro da boca essa bomba/ Espera sua explosão/ enquanto engorda na sombra/ Para arrombar a prisão// Mas se ele vem a ser dito/ Vira uma afirmação/ Num balbucio ou num grito/ Desfaz a indecisão/ Desembaraça o conflito/ que embaçava a visão/ A vida ganha sentido/ O pé recupera o chão.”

Amanhã Nunca Mais estreou em 2011 e ficou pouco tempo em cartaz. Já foi exibido algumas vezes no Telecine. Vai chegar às locadoras neste abril.
 

ARTISTA MULTIMÍDIA

Tadeu Jungle

Tadeu Jungle nasceu em São Paulo, onde vive, em 1956. É formado em Comunicação Social com especialização em TV. Artista multimídia, atua como videomaker, fotógrafo, poeta, designer gráfico, produtor e diretor de cinema, TV e publicidade.

Tendo iniciado suas experiências com vídeo em 1974, Jungle fez parte da geração do vídeo independente, composta por realizadores recém-saídos da universidade no início dos anos 1980. Junto a colegas da ECA-USP, constituiu o grupo TVDO, marcado por um espírito anárquico, com o qual criou videoinstalações e teve vídeos experimentais premiados nas cinco primeiras edições do VideoBrasil.

Em 1986, fundou a primeira escola de vídeo do país, a Academia Brasileira de Vídeo. Mestre em Arte e TV pela San Francisco State University, Califórnia, foi bastante premiado por seus vídeos em mostras competitivas nos Estados Unidos, Europa e América Latina. Atualmente, é sócio da produtora Academia de Filmes. Dirigiu e roteirizou em 2011 o longa de ficção Amanhã Nunca Mais, resenhado ao lado, e o filme documentário Evoé, Retrato de um Antropófago, sobre o dramaturgo Zé Celso Martinez Correa.

Na TV, co-dirigiu com Nelson Motta o musical Mocidade Independente (Bandeirantes), e apresentou Fábrica do Som (Cultura), Amor em quatro atos (Globo), Amazônia Niemeyer e Amores Expressos.

Atualmente prepara seu segundo longa-metragem, a comédia chamada Dé Real, e escreve uma minissérie para a televisão.

Serviço
Título: Amanhã Nunca Mais
Direção: Tadeu Jungle
Gênero: Comédia (com jeito de tragédia)
Duração: 76 minutos
Atores: Lázaro Ramos, Fernanda Machado, Maria Luiza Mendonça.

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