O deus dos pequenos

Por: Lucileida Mara de Castro

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Revivo aquele dia já perdido no tempo, posso enxergar a cena como se ocorresse agora: Leo me observa com aqueles olhos verdes profundos. Sabe que vacilo diante do que acaba de me explicar... Crê que Deus é uno, porém, múltiplo. Por isso é onipresente e atemporal, justifica.

O diálogo, mais uma vez se desenrola diante de mim...

Se você quiser, insiste Leo, pode escolher apenas uma das facetas de Deus para adorar. A parte vale pelo todo, porque acrescenta piscando repetidamente há essa questão da unicidade.

Pessoalmente filosofa , acho muito mais simples assim. Pego a parte que acredito estar mais perto de mim. Alguns acham que é desvantajoso, porque se fica com a letra “d” minúscula, mas para mim tanto faz. Dou-me muito melhor com o deus dos pequenos seres.

Ah! Isso há também? Vejo-me questionando, muito pouco convencida.

Sem dúvida! Posso ouvi-lo como fosse hoje - Um deus só para as flores, as folhas, as formigas, os gafanhotos e os pássaros pequenos, só para os pequenos. Mas, dando-se conta de alguma possível falha em seu raciocínio, acrescentou que deveríamos estar atentos para não confundirmos pequenos seres com seres pequenos. Veja, a diferença é sutil, porém muito séria!

Lembro-me bem de como era Leo: elaborava suas próprias teorias sobre a vida e gastava horas inteiras discorrendo sobre elas, buscando lhes dar consistência. Eu o ouvia e, repetidas vezes, era envolvida naquele jogo de lógica. Às vezes, mesmo após nos separarmos, eu me mantinha refletindo sobre aquele filosofar tão particular.

Naquele dia, perguntei-me: por que o deus dos pequenos seres não pode também cuidar dos seres pequenos? A questão me interessara desde que Leo me explicara o critério de classificação: seres pequenos eram todos aqueles que já haviam feito algum mal aos pequenos seres. Se, por exemplo, alguém, alguma vez, conscientemente matara uma formiga ou desfolhara uma flor, esse alguém ofendera ao deus dos pequenos seres e, portanto, fizera algo de maldito.

Recordo-me que, timidamente, já temendo esse deus dos pequenos seres, perguntei: e se a pessoa fosse bem pequena quando cometeu essa maldade? Leo apenas balançou a cabeça e recebi ali toda a minha condenação. O que deveria fazer? Penitenciar-me? Confessar publicamente toda a minha infâmia? Sim! Sou culpada! Pessoalmente perdi a conta de formigas que matei. Arrependo-me principalmente das saúvas decapitadas, transformadas em broches presos à blusa na qual escrevi, com suas cabecinhas, as letras iniciais de meu nome. Como conviver com tamanha tragédia?

Desde então, talvez tenha me acreditado, inconscientemente, condenada pelo deus de Leo. De alguma forma, eu me convenci estar desamparada e que, mais dia, menos dia, o destino viria ao meu encontro cobrando o cumprimento da sentença estipulada pelo deus dos pequenos seres.

Porém, a vida nos distrai e essa antiga história adormeceu em algum canto de mim até que, recentemente, fui traída pelo tempo e meu corpo adoeceu e adormeceu. Foi nesse dia que o deus dos pequenos seres saiu das profundezas das divagações de Leo e se fez presente em minha vida.

Eu, ser pequeno e previamente condenado pelos desatinos infantis, estava agora em suas mãos. Na minha fragilidade, como agiria o deus dos pequenos seres? Eu não o via, porém eu o pressentia nos pequenos pássaros que cantavam enquanto me encaminhava para o consultório do médico de toda uma vida; eu o pressentia nas flores cor-de-rosa que enfeitavam meu caminhar inseguro; no silêncio da sala de espera.

Houvera mudanças: uma secretária que eu não conhecia me recebeu, alertou-me de que não havia horário, a agenda estava sobrecarregada. Iria falar com o Doutor, ver-se-ia o que fazer... Informou-se sobre meu nome, buscaria o prontuário. Quem sabe houvesse uma possibilidade? Que não poderia fazer promessas, pois era um dia repleto de doentes...

Ó deus dos pequenos seres! Poderia naquele momento, caso quisesse, dar-me tratamento parecido ao que dei às saúvas. Abandonar-me à própria sorte. Tirar proveito de minha incerteza. Porém, a moça volta e gentil avisa que serei atendida. Alguém se atrasara, abrira-se um pequeno espaço na tumultuada agenda.

O médico de uma vida inteira ajudou-me. Cuidou da fragilidade de meu organismo e fortaleceu-me a alma. Dei-me conta do engano de Leo quando defendeu sua visão de que o deus dos pequenos seres era um deus só para as flores, as folhas, as formigas, os gafanhotos e os pássaros pequenos, só para os pequenos.

Tornamo-nos tão frágeis diante da dor, do medo, do desamparo que nos esbarramos na necessidade de sermos acalentados, cuidados, tratados. É quando fica claro e escancarado o quanto somos pequenos.

Por isso, quando me encontrar com Leo, devo retomar o debate. Gostaria de lhe dizer que o seu deus dos pequenos seres é mais complexo do que ele pensa. Que também é deus dos humanos quando sofrem, pois nesses momentos se encolhem suas almas e eles ficam menores do que pássaros ou margaridas desfolhadas. Que sua divindade se manifesta em pequenos gestos de gentileza, de bondade e incentivo para que aceitemos as nossas humanas limitações.

Quero que Leo considere que o deus dos pequenos seres facilita o caminho dos que sofrem para lhes curar desse sofrimento. Que sua interferência é feita através de pequenos gestos de solidariedade e leveza da parte daqueles que se propõe a aliviar o fardo do homem diante da fatalidade do fluxo da vida. Quero que Leo entenda que o deus dos pequenos seres é democrático, humilde, que o seu princípio é de uma simplicidade desconcertante: Sê gentil! Sê humano! E a vida será melhor!

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