Líquida Essência

Por: Eny Miranda

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Quem esteve na Câmara Municipal de Franca, no sábado, 23 de março, certamente se emocionou, como eu, com a justa e tocante homenagem prestada à poeta e professora Regina Helena Bastianini, já um ícone da Palavra na cidade. Os muitos amigos presentes; as manifestações de apreço à escritora, à mestra, ao ser humano que é Regina; o amor e a emoção permeando o ar, sensíveis nas palavras de sua mãe e suas irmãs; a paixão, evidenciada nas de Maria Luiza Salomão, e o carinho, o respeito, o reconhecimento de valor, nas de seu parceiro de letras e labores, Luiz Cruz de Oliveira... Tudo isso fez memorável aquela noite.

Tomo nas mãos, mais uma vez, o seu Mar em canto, lançado em 2012.

Desde o título, nele sobressaem a musicalidade, o lirismo, a visão holística (e ao mesmo tempo analítica) da palavra, o desvelo no trato com o verbo e, sobretudo, a íntima relação da autora com as águas e o etéreo. Regina é poeta da aliança entre essência e transcendência, poeta do “Entre águas / Intercéu”; da aproximação e da fusão entre fins e origens.

A ligação de Regina com as águas vem de muito, muito longe; de muito antes da ontogênese - reveste-se de amplitude filogenética. Águas imemoriais são parte íntima de Regina e de seu fazer poético. A consciência de que essas águas irrigam seu corpo e integram sua alma flui no “... rio perene / De [sua] infância sem nuvens”, mergulha no mar que nela habita e a espera, emerge em suas palavras: “Rio das minhas águas internas, / A percorrer em minhas veias / A eterna ânsia de mar, / [...] / Que cheia de tua graça / Eu honre o mar que me habita / Eu habite o mar que me espera”.

O mar é sua musa; com ele mantém um laço, além de ancestral, líquido e esférico, original e universal, pois que a água, origem, substrato, matéria e motivo da vida, encerra em sua gota - cristal líquido perfeitamente esférico - a perfeição universal: face contínua, sem início nem fim aparentes, voltada para todos os lados ao mesmo tempo, como a face do Universo.

Filha e neta do São Francisco (o seu “Sãofrancisquinho”), a quem pede a bênção e abençoa em aquática poesia - “A bênção, rio Pai / De meu sonho de mar” -, Regina é irmã e fruto do oceano, de quem sempre experimentou saudades radiculares.

Rio e mar navegam as páginas do livro e a alma da autora.

Aprofundo-me nessas águas, doces e salgadas, plácidas e revoltas, sonoras e silenciosas; nessas obscuras, misteriosas, translúcidas, cristalinas águas em que, Marinheira, “Soltando velas / Sonhando mar / Buscando a mar”, eu me faço Almar.

A abertura de Mar em canto se faz em rocha, água, sal e sonho; amor, desejos ardentes, aproximações e fugas; angústias, mistérios e possibilidades - azuis anelos e azuis encontros com o “silêncio de raízes” e a “unicidade consciente de todas as coisas”: O Sonho Azul, que apresenta, fundamenta e anima o livro. Nas palavras irretocáveis de Sonia Machiavelli, “O Sonho azul [...] traduz com múltiplos azuis a paisagem anímica onde foram concebidos os poemas”. Nas de Caio Porfírio Carneiro, que com sensibilidade apresenta a obra, “... o portal, [...], que abre o livro, dá o tom e o tônus da navegação poética a seguir”.

O texto, em prosa lírica, expressa a consciência da intemporal e universal ligação entre os elementos que formam cada partícula de matéria. É uma viagem onírica e amorosa; uma viagem de retorno ao instante seminal, à origem da vida e, ao mesmo tempo, à da palavra poética. O objeto do amor (e do sonho) é o mar - “profundidade de luz azulínea” - e seus movimentos, seus encantos, seus enigmas. Sugerindo continuidade (“Era sempre assim”), o poema em prosa desenvolve-se em espirais e fecha-se em círculo. São buscas anímicas e sensuais, que vão do anseio à líquida entrega ao “azul paz de todos os fins”, marco do despertar para novo azul “promessa de infinitos”, agora “com uns vagos tons doídos de saudade”. Acompanha, portanto, o movimento de idas e vindas das ondas e das marés; a irreprimível força de atração entre fins e origens... origens e fins... indefinidamente subentrantes.

Esses ciclos se desdobram em novos ciclos, e assim Regina vai plasmando em azul poesia de água e sal e sonho e movimento o Sonho azul, e de mel e água e sal e sonho e movimento as páginas de todo o livro, desde a doçura do São Francisco, de quem recebe as bênçãos e as águas, depois mares adentro, em espelho e comunhão, até fechar-se em abertura para si mesma, liberando a alma ao mar, e novamente se perdendo “olhos cegos de imensidão / [...] no sorvedouro de sensações / encapeladas / no [...] sangue / Cheio de céu”.

Na primeira parte do livro (Dias a bordo) vejo-a ânsia além da doçura, corpórea poesia, a princípio, flertando com o azul. Depois, lançando-se “cheia de graça” no seu “sonho de mar”, Regina é rio desaguado, observando, experimentando, doando-se e bebendo, com sede, as águas vivas e livres, originais e terminais; habitando, finalmente, o mar que esperava e a esperava: “Azul de céu, / Azul de água, / Azul de sonho”, e nele se permitindo diluir: “Filha dos elementos, / Dissolvo-me no sinuoso abraço / Que envolve a Terra. / Deixo de ser / Para saber a água / E sorver azuis / E romper cadeias invisíveis / [...] / E aprender a linguagem do universo” (do latim universum - ponto de convergência). É a confluência poética de duas e de infinitas águas, de duas e de mil histórias, de dois e de todos os tempos. Encontro íntimo e universal; sensual e espiritual; mundano e sagrado. Poeta e Poesia se fundem; Homem e Oceano se confundem em universo líquido e esférico.

Na segunda parte (A bordo dos dias), observo-a viageira do imo, navegante do “mar interior”: “Desde o porto inseguro dos meus dias / Navego as águas turvas do meu ser”; mar de águas presentes e imemoriais, universo igualmente infinito, intemporal, líquido e esférico: “Pulsa no meu peito o universo / E meu coração sem ponteiros / Bate tempo tempo tempo...”; mar de águas superficiais e profundas: “Olhos de água inundados de céu e luz / Pés de vagas afrontando abismos”; mar de ânsias, mistérios, sonhos e horizontes, que se mira e se reflete no outro mar, ao longe, ao perto, ao corpo, à alma... Almar: terceira parte do livro, onde as almas da poeta e do mar-oceano se miram, se provam, se recebem e se unem na geração de uma só alma, um só mar, um só vocábulo, um só universo anímico/aquático/poético, aninhado no “Útero da Terra / Pia batismal de sonhos / [...] / Grito de palavras impossíveis / Poesia”, que se vai deixando gotejar nas páginas - “canto de sereia”, “silêncio nas notas do vento” - dizendo “marulhos de além alma” em azul-ferrete, esfíngico, abissal, quase amedrontador; em azul-cobalto, sedutor, cheio do mistério e do fascínio próprios do mar; em azul-cerúleo, macio, luminoso, convidativo...

Emmanuel Berl, jornalista, ensaísta e historiador francês, lembra-nos o quão difícil pode ser a leitura de uma obra de arte: “A criação artística é mistério: a interpretação também o é”. Portanto, às várias leituras, o livro se abre em mil novas interpretações: desdobra-se em ondas e ondas, que vêm e vão, vão e vêm... compondo e recompondo outras ondas e mares e infinitos almares...

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