Amor, o que é isso? É de comer?

Por: Débora Menegoti

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Sim. Ô se é! Tanto que muitos acham que o Amor seja só isso. Mas só de comer o Amor não é. O Amor é dar e receber, é partilha. Sem um manual de instruções, sem organização sistemática, o Amor não é matemática. Não tem explicação intrínseca. Mas eu o vejo assim: montanha russa, subir morro, descer ladeira; feito kamikaze, feito criança com papelão. O Amor às vezes está guardado a sete palmos de palavras duras, é plantar no espírito a felicidade sem pensar que ele pode nos levar a vida, ou saber disso e ter a coragem feraz de preferir ainda a possibilidade de sermos fuzilados sem o lenço. O Amor faz seus rodeios e flameja seu fogo-fátuo.

Cada forma que tem, passando como herança de geração em geração. Ou despertado em momentos de breu de nossa alma.

Pode ser primavera, outono, verão e inverno num só dia dentro da gente. É coceirinha boa quando alguém nos coça, é um corte no pé que alguém nos cuida, um espinho que alguém nos livra, dividir o som de águas vivas caindo lá de cima do morro mordendo as pedras nas coxas da vida. É fecunda unção.

O Amor brinca de pique-esconde, mostra a língua pra gente quando somos apanhados desprevenidos na sessão de bebidas do supermercado, chorando e rindo ao mesmo tempo.

Se é de passar no cabelo? Oras... É também! Porque não?! É a melhor vitamina que existe! De passar nos cabelos, nos pelos, de pôr no peito, de pingar nos olhos, de esfregar nos pés, nas costas... O Amor nos reveste, é uma couraça, uma armadura ou redoma, nos blinda da morte em vida, é a própria essência da vida!

Às vezes o Amor é de ensinar coisinhas: dar laço em cadarços, comer brócolis, jiló e berinjela, é de te limpar o bumbum, ou está em você quando ensina como se faz.

Ora ele chega e te rouba tudo, até a voz, o ar dos pulmões, leva seus discos favoritos, o controle da TV, suas camisas, seu lar... Ora o Amor irradia telúrico da terra e nos contagia como em curto circuito. E dançamos magnetizados. Atinge-nos como bala perdida.

O amor usa suas ferramentas e põe mais sabor nas frutas, calmamente ofertadas pelas mãos de um amante, que ao fazê-lo torna-se seu dono e você sua humilde escrava espontaneamente. Ele escorre pelos dedos, é de chupar e lamber sem medo. È mesmo piegas e nojento aos olhos dos que não amam, não é de muita etiqueta.

Dentro de nós o Amor, sublime que é, planta em todo entardecer dentro dos seres enamorados um esplêndido espetáculo. Forte como grito de guerra, amplitude e claridão . Está no riso e na rabugentice das pessoas que sofrem seus amores de pedra.

O Amor está do outro lado do buraco carcomido de nosso muro, míope a nos olhar de lá, nos convida a brincar do lado de fora. Tem quem responda que é ainda cedo, acha que ele volta mais tarde, mas ele se distrai. Tem quem diga que já é noite, e vai se guardar. Tem quem teme o que os outros vão pensar. Tem quem finge não escutar o Amor chamar. Tem quem larga tudo e vai na hora, ou mesmo antes dele chamar.

O Amor, ao contrário do que muitos pensam, é uma neblina densa na estrada que nos leva a algum lugar ou a lugar nenhum. Pode ser a própria estrada, é o Éter o próprio Cosmos. Ele pode ou não te despertar. Mas, digo, vale sempre qualquer penar mesmo se te ilude, se te expõe nu, se humilha e depois se vai sem olhar pra trás.

O amor é reação secreta. Pura química orgânica; explosão atômica a nível molecular, para reagir com o impulso astronômico lunar.

Há de tratá-lo com carinho, cultivar, para não fenecer. O Amor implica responsabilidade, minha amiga. Não é como uma embriaguez. Ele te cobra atenção, graça, cuidados. Ah! Como cobra!

O amor nunca está saciado. Ele também te come. Te come viva, te dilacera às vezes. Mas é melhor se atrever a se sujeitar, que não ser por ele comida. Mas uma coisa digo, minha amiga: Amor não é só de comer. Se for, Amor não é.

Traiçoeiro ele pede guerra. Doa como ele quiser. Eu quero o Amor em minha vida! Talvez surjam guerras de travesseiros, de goiabas podres, de bexiga d’água. Talvez me deixe sem os dentes da frente. Eu me arrisco. Nunca me arrependo, eu amo não só os de meu sangue, com todo meu ser. Amo quando quero arriscar, quando acho alguém merecedor de meu amor. E Amo deliberadamente. Até que a irresponsabilidade, ou outro amor, ou os desafetos nos separe. E é aí que me pego a pensar que confundi uma pedra, uma geladeira de república (dessas bem vazias) ou um rinoceronte com o meu ser Amado.

Ô Bonitão, você está aí? Bonitaão??? Você me lê? Escute aqui, eu Amo deliberadamente! Ouviu??? Você não é rinoceronte, né?

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