Familiar

Por: Débora Menegoti

Da escadaria da cozinha que a separava do quintal gramado, campo aberto, avistavam-se raios de sol passando majestosamente entre eucaliptos, a brisa matutina trazia aquele frescor até minhas narinas, aroma geladinho ensolarado! Arrastava-me, para onde minha alma encontrava ninho. Vale de água doce, o gelado acolhedor de meus dias, a argila alegre subindo em morros, o barulho delicado escorregando nas pedras lisinhas, as raízes enormes. Que saudade daquele tronco caído sobre o riacho! De margem a outra, aquela mata fechada (mais protetora que paredes de qualquer lugar), me deitava nele para esvaziar alma.

Vale das Borboletas! Eu enchia as mãos da sua areia e jogava em direção da mata despertando lindo espetáculo! Aquele mágico panapaná!

Lá Amor era, calmo, justo, esquecível. Lá não havia família, amores mal vividos. Lá não existia nem fome. Eu estava onde queria!

Enquanto isto, em casa, mamãe destilava sonhos. Lábios miúdos com batom Avon, o bigodinho pontilhadinho de suor! Aquela correria! As panelas quentes, suas fumaçinhas preguiçosas desenhando no ar formas perfeitas do cuidado, da dedicação perene. Que cheiro bom!

Mamãe destilava sonhos! Isso quando o serviço ou o álcool não a consumiam toda; deixava sempre pra depois aquilo que ela queria pra si. Como aquele sutiã espetacular, aqueles óculos Ray Ban, aquele casaco, aqueles sapatos... De tanto deixar pra depois, o depois nunca veio. Afinal eram sempre tempos “difíceis”, e para mamãe eram sempre muito mais.

Pra mim eram tempos difíceis só quando tinha que acordar com o galo cantando madrugador, respirar o primeiro odor sóbrio do café torrando.

Separar nata do leite sem assoprar, só quem viu leite de verdade, sabe o que é nata de verdade! Ou, ainda, resistir à tentação de acordar papai no meio da tarde com as mãos geladas, meladas de doce, quando ele iria trabalhar à noite. Era difícil virar macaca de árvore em árvore e achar meio bicho na goiaba!

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