A Bela da Tarde

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Apesar da semelhança do famoso filme A Bela da Tarde, do cineasta espanhol Luís Buñuel, de 1967, com esta história se ater quase que só às sugestivas palavras do título, muito tempo antes do seu lançamento, uma jovem senhora casada, todas as tardes, deixava sua casa, sob o pretexto de ir ao dentista ou fazer compras, sob sol ardente, protegida por uma sombrinha colorida, uma bolsa pendurada nos braços, bem arrumada, discretamente perfumada, para ir se encontrar com um rapaz solteiro, belo, vigoroso, conhecido pela fama de sedutor e avesso ao trabalho.

Eu a conheci através de uma foto do seu casamento, de 1960, tirada em frente ao cartório de Registro Civil, onde aparecia segurando sua filhinha pela mão, ao lado de seu jovem e vistoso marido, pai da criança. Ela usava um elegante conjunto simétrico, sapatos altos que ornavam muito bem seu talhe fino, sua tez clara, cabelos cacheados. Este casamento, embora causasse algumas restrições na família, pois já existia um relacionamento informal entre eles, ia muito bem até que o marido foi avisado por uma vizinha sobre a hora em que a mulher saía de casa. Muito contrariado, foi obrigado a segui-la e deparar com a realidade. Pressionado, contratou um advogado, idealista, recém formado, que seguindo os trâmites normais levou-os perante o juiz que , depois de ouvi-los e tentar dissuadi-los sem sucesso, proferiu o desquite. Para o jovem profissional tudo tinha sido resolvido naquele momento, o que era esperado para os padrões da época, mas os atos humanos são impregnados de força emotiva e por isso são imprevisíveis.

O que fez com que ela deixasse a tranquilidade e segurança de seu lar, após ter legalizada a sua situação, e tivesse tal atitude de lançar-se numa inconsequente aventura amorosa ? Desejos, fantasias, sensualidade, o inusitado, paixão, um pensamento instigante ? Muitas poderiam ser as respostas, mas a pergunta continua sendo mais difícil, mais complexa, mais inexplicada, pois no mundo obscuro do desejo nem tudo pode ser entendido racionalmente.

Tendo vivido as dificuldades da separação e reconhecendo que se amavam verdadeiramente, quiseram reatar a união e o mesmo advogado foi chamado para providenciar a reconciliação. De novo, diante do juiz, concordaram em se unir, agora para sempre. Enquanto ficaram separados ele escreveu um caderno de poesias de amor dedicadas a ela e, para celebrar a nova vida, ele o ofereceu, envolto em uma fita de cetim rubro, com um laço bem firme para simbolizar aquele momento. Delicadamente ela abaixou a cabeça e seus grandes olhos azuis orvalharam...

Nada mais aconteceu a não ser uma próspera vida conjugal, muitos amigos e alegrias. Ela sabia como fazê-lo feliz, sua casa era organizada, preparava pratos deliciosos. Dedicava-se ao marido com gosto e carinho, ele a amava e respeitava, fazia-lhe todas as vontades, passeavam juntos e riam muito. A filha foi para Londres especializar-se em Inglês e por lá ficou. Raríssimas foram suas visitas aos pais. Morreram velhinhos, ela primeiro, o que muitos lamentaram, porque ele não sabia viver sem ela.

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