Senhor Rodolfo

Por: Everton de Paula

Morava na capital, mas ninguém sabia onde. Chegava à cidade do interior. Vinha de ônibus até Barrinha; depois pegava uma limusine e descia em Franca. Hospedava-se no Hotel Marconi. Trazia consigo uma valise de couro puído; ali estavam algumas ferramentas estranhas, pouco comuns, com as quais mexia nas entranhas do piano. Os dedos gordos dificilmente serviam para ferir uma só tecla; esbarravam desajeitadamente em duas.

Fogem-me alguns detalhes do seu jeito de ser. Tinhas olhos azuis, cansados, tristes. Fumava. O piano ficava um pouquinho, mas só um pouquinho mais finado. Não conversava. Recordo apenas de um elogio que fizera à empregada quando esta lhe ofereceu um cálice de licor de jenipapo. Nem sei mais se alguém faz licor de jenipapo.

Trazia um anel de ouro, com rubi incrustado, no anelar da mão esquerda.

Trazia mais: uma enorme tristeza expressa em seu corpanzil e nos sons repetidos de uma nota só que extraía do velho Pleyel, negro e polido com óleo de peroba.

Às vezes, trocava a corda de uma nota; substituía-a por outra, nova, e guardava a velha na valise. Para quê? Por que não a jogava fora?

Sua visita, embora anual, era de uma pontualidade tal que passou a fazer parte do calendário da casa: havia o início das aulas, depois o carnaval, a quaresma, a Páscoa, as delícias de julho... E em agosto, junto com os amarelos e os roxos dos ipês da avenida, ele chegava.

No começo, nós o recebíamos com alegria, cumprimentos efusivos. Ao longo dos anos, ele estabeleceu silenciosamente como gostaria de trabalhar... E de ser recebido. Apenas a fala de conveniência, a de necessidade.

Confundia a nós, crianças. Para nós, o que viesse da capital era moderno, bacana, perfumado, amaneirado, agitado, inteligente... Mas o afinador de pianos teimava em nos mostrar outro lado, um lado exótico. O único brilho era o embaçado do anel de ouro e os clipes dos largos suspensórios. Os olhos muito azuis emoldurados por uma vasta, despenteada e ensebada cabeleira loira.

Quando terminava o seu trabalho, secava o suor da face com um lenço que trazia no bolso detrás da calça. Chamava meu pai e lhe pedia para tocar alguma coisa. “Alguma coisa” era sempre a La Cumparsita, velho tango de salões e saudades, como se suas notas e escalas cromáticas fossem o suficiente para consentir na afinação e no pagamento.

Depois, o afinador, ele próprio, sentava-se à banqueta e dava o veredicto final. Pigarreava, esfregava as mãos uma na outra, entrecruzava os dedos, esticava os braços e dedilhava as teclas de marfim amarelecido e as negras de ébano. Invariavelmente, respondia ao tango de meu pai com o melodioso Le Lac de Côme. Minha mãe suspirava, meu pai fazia o pagamento, despediam-se e aquela enorme solidão e melancolia deixava a sala, saía de casa, restando no ar o cheiro do cigarro Fulgor, que vinha num pacotinho azul.

Talvez fosse o ano de 1962. Aproximava-se agosto. Os ipês já estavam amarelos e a casa se preparava para receber o afinador. Meu pai fora buscá-lo no hotel. Voltou sozinho. O afinador conseguira chegar até o hotel, mas não veio para casa. . Quem entrou na sala foi meu pai, com um olhar expressivamente espantado e, entre outras palavras e explicações, disse:

— O afinador de pianos não vem mais. Amanheceu morto num quarto do Marconi. Parece que foi suicídio. Enforcou-se com várias cordas de piano retorcidas. O pobre homem está morto.

Passou-se o tempo. O velho Pleyel, presente de uma tia sob minha promessa de estudar piano no conservatório da cidade, foi trocado por um Zimmerman novinho. E nesse passar de tempo, estudei La Cumparsita e Le Lac de Côme. Às vezes, há bem uns dez anos, insistia em executá-las, mas com suas notas um amontoado de tristes lembranças povoava minha alma. O afinador e meu pai estavam mortos. Suspirava, pensava nos tios adormecidos e sapecava um chorinho de Ernesto Nazareth.

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