O Gozo do Mal

Por: Maria Luiza Salomão

207941

A obra-prima convida a todos para um sábado francano, com pipoca, cafezinho e disposição erótica (vamos distinguir erotismo de perversão?).

A cena inicial mostra Sade (Geoffrey Rush) observando, de uma janelinha no alto de um prédio, a execução na guilhotina de uma mulher, aparentemente da nobreza. Em off, ouvimos a voz de Sade narrando o prazer que uns sentem com o sofrimento dos outros e a alternância de poder entre vítima e algoz, no jogo da vida. Inúmeras cabeças decepadas; o povo a se divertir com o horror da vítima prestes a ser guilhotinada (a furtar anéis de corpos sem cabeça amontoados na carroça); o sangue da guilhotina a pingar na face da vítima prestes a morrer. A câmara foca um coro de vozes de crianças que cantam, e mendigam, em meio à multidão excitada. A canção é cantarolada por Sade, que se senta e escreve a história em bico de pena (Quills, penas, é o título do filme em inglês) e tinta vermelha. A cena sugere e antecipa o fio narrativo do filme. Sade a escrever cantarolando lembra o infantil, aquele “infantil” que Freud enunciou, em 1905, sobre as características “perverso-polimorfas” da sexualidade das crianças. No início da vida, as crianças comem suas fezes, gostam de sujeiras, estimulam seus corpos sem censura, culpa ou vergonha, que advêm depois, como o tributo para se tornarem civilizadas.

Sade foi encarcerado no hospício por 28 anos. Ficou preso na Bastilha, na era do absolutismo francês, em 1784, cercado de livros. No Antigo Regime, foi acusado de crime, por sodomia e blasfêmia, e elabora uma retórica da sexualidade, via escrita. Roudinesco, psicanalista francesa, diz que Sade passa do status de perverso sexual ao de teórico das perversões humanas. Em 1789, Revolução Francesa, Robespierre o condena pela autoria do seu livro infame, Justine, e por ser ateu, e o tomam como louco.

Em 1803, era napoleônica, morto Robespierre, Sade volta ao hospício de Charenton, cenário do filme. O hospício se torna o palco de uma batalha ideológica entre o médico Royer-Collard (Michael Kaine) -que vê o Marquês como um pervertedor - e o abade Coulmier (Joaquin Phoenix), discípulo de Pinel (1745-1826), até então o administrador do hospício. Coulmier acreditava que Sade, escrevendo, se “desintoxicaria” de suas ideias cruéis e perversas. Escrever e encenar, com os loucos de Charenton, peças teatrais, seriam uma terapêutica para Sade, para Coulmier.

A chegada de Collard abala as convicções de Coulmier. Se Sade não é louco, o que ele era? Um criminoso ou um “gênio do mal”? Autor transgressivo às leis da moral, da nova Constituição francesa? Como o Marquês não era louco ou criminoso, mas também não podia ser aceito pela sociedade, Sade era um “caso” novo, um perverso, um louco moral. Em 1838 é criado o neologismo “sadismo”, “gozar o sofrimento do outro”.

Sade foi rejeitado triplamente: pelo Antigo Regime, absolutista, como criminoso, pelos revolucionários de 1789 (por questão moral) e pelo Imperador Bonaparte. Barthes, semiólogo, diz que Sade nos revela a natureza das interdições através dos escritos. Sade goza com sua “escrita incendiária”, consumida vorazmente pelo povo. E o que Sade incendeia? A imaginação. A Ciência do século 19 e a Religião reprimem, em Sade, o mais obscuro do ser humano, o “gozo do mal”. O médico Collard, hipócrita, esconde os seus aspectos perversos - de torturador e pedófilo, ao casar-se com uma jovenzinha criada em convento.

A perversão está na escrita de Sade, mas também no povo que o lê devorando, nos regimes políticos franceses, nos religiosos, na Ciência, na medicina torturadora e repressora. De forma reprimida, hipócrita, não declarada. O “povo dos perversos” escancara o esconso, em um processo destrutivo e auto-destrutivo. A perversão, enquanto funcionamento psíquico, não reconhece a imensa confusão entre Bem e Mal, a dispersão de valores que modela os seus atos. Ao longo de dois séculos a escrita de Sade intriga. Otávio Paz, poeta, diz em seu pequeno grande livro Mais além do erotismo: Sade, “a importância do Marquês não é literária, é filosófica e psicológica”. O “gozo do mal” permeia os atos humanos, desde Caim e Abel: guerra íntima constante. Há que se pegar o demônio pelos chifres.


DIRETOR

Philip Kaufman

O diretor, produtor e roteirista, de 76 anos, nasceu em Chicago. Fez A Insustentável leveza do ser (1988), diretor e roteirista, Bafta de Melhor Roteiro Adaptado; Henry & June (1990); Rising Sun (1993); A Marca (2004); Hemingway & Gellhorn (2012). Kaufman foi encorajado por Anaïs Nin a se tornar cineasta, em 1962. Prêmio Orson Welles, 1989.

O roteiro de Contos Proibidos do Marquês de Sade (2000) é de Doug Wright. O elenco é espetacular. Geoffrey Rush, como Sade, tem atuação impecável. Aliás, indicado três vezes ao Oscar, o filme não levou nenhum.

A temática é contemporânea. E. Roudinesco em outro pequeno grande livro historia a Perversão, in A Parte Obscura de Nós Mesmos, Ed. Zahar, 2007. Faz uma excelente análise sobre “a sociedade perversa” de nossos tempos. A perversão, hoje, está nas manchetes da mídia, nas corrupções dos políticos, em pequenos delitos do dia a dia, “síndromes do pequeno poder”, na pouca valorização ao ser humano (tratado como objeto de consumo), no desprezo pela vida (atos terroristas, fundamentalismo religioso), nas paixões amorosas sado-masoquistas, na “inocente” fofoca. O “gozo do Mal” parece intrínseco à natureza humana, e são os perversos que tornam evidente esse “gozo”.

Sade e Freud estão em polos opostos. Sade vê o Mal como aquilo que vai contra a natureza, tomando a si mesmo, e ao outro, como objeto de satisfação sexual. Freud vê o Mal no que leva à autodestruição e à destruição do Outro, quando Thanatos (pulsão de morte) vence Eros (pulsão de vida). Quando o sujeito se desconhece como sujeito e desconhece o outro como sujeito. Ambos sujeitos do Desejo.

Serviço
Título: Contos Proibidos do Marquês de Sade
Onde: Anfiteatro da Sede Campestre do Centro Médico
Horário: 15 horas
Comentarista: Sônia Maria de Godoy

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras