Os fantasmas “bilevis”

Por: Paulo Rubens Gimenes

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Num acredito em fantasma, mas que eles existe, existe!

Ora, é só sentá numa roda em torno da fogueira, na quaresma, com uns cabra-macho pra ouvir os causo e as verdade jurada dos cabloco e conhecer um sem número dessas histórias.

É claro que é tudo verdade, mas uma me impressionô mais, porque junta da história contada pelo Bilubá vinha a prova material, um pedaço da manta do fantasma, com os misteriosos dizeres - “bilevis”- suado troféu conquistado numa das tanta peleja da turma do bem contra as alma penada do lado dos inferno.

— BILEVIS! BILEVIS! gritava alterado o Biluba, é isso que tá escrito na manta do capeta, vai saber o que quer dizer, só mesmo aqueles cientista que estuda as pedra, as coisa antiga pra traduzir essa escrita.

E foi mais ou menos assim o acontecido:

Pórvinha era menino bom, educado, e embora morasse num dos sítios mais distantes do povoado do Buritizinho sempre se oferecia pra acompanhar as graciosas irmãs Martinha e Delena até a casa delas, um sitioca localizado do outro lado da morada o Pórvinha.

As manas sempre concordavam, pois assim sentiam-se seguras, sobretudo nas quermesses da Capela de Santa Rita quando a caminhada se dava na escuridão, na alta noite.

Uma vez sucedeu que uns primo da Delena viero passá uns dia pelas banda de cá, de passeio. Uns moço esquisito, sempre limpinhos, com a pele branquinha e um jeito engraçado de falá com a ponta da língua batendo na ponta dos dente “titia Didi... não agueinto...” que a gente achava bonito e tentava falar igual.

Essa turma da capital parecia não gostar muito do nosso cantinho não, ficavam sentados debaixo da mangueira em frente ao bar do Brugin com cara de “tô cansado da vida”, fumando uns cigarro catinguento e vez em quando dando risada.

Tanto não tavam gostando daqui que no primeiro dia da quermesse em honra a Santa Rita, foram embora antes do leilão das prenda, mesmo depois de receber uns correio elegante das caipirinha daqui; apearo cedo, todos os cinco, com a mesma cara enjuada de antes.

Mais uma vez, Pórvinha foi cavalheiro e levou Martinha e Delena e foi ai que a coisa aconteceu; já pertinho da casa das menina, coisa de dois quilômetros, na porteira do Quilombo, nosso amigo foi atacado por um bando de fantasma fanfarrão. Morrendo de medo, Pórvinha esqueceu de cavalheirimos e “vazô na braquiária” deixando pra trás as meninas, os fantasmas e suas risadas altas e amedrontadoras. Sebo nas canelas!

Isso foi numa sexta-feira, o dia predileto pro ataque das criaturas de outro mundo. No sábado de manhã, ainda assustado mas sobretudo envergonhado de ter abandonado as donzelas à própria sorte, Pórvinha contava pra turma o aperreio que tinha passado. Solidários e valentes os amigos se postaram pra ajudar, mesmo em se tratando de turma dos “coisa ruim”, cinco contra um era covardia! Se tivesse mais ataque, Pórvinha não ia tá sozinho.

Sábado à noite, mais uma rodada da quermesse e tava todo mundo lá: as famílias da região, o leiloeiro, o padre Crispin e suas beata, Martinha e Delena com seus primos da capital, que, ao invés do enfado, riam sem parar. Envergonhado, Pórvinha chegou pras meninas com um pedido de desculpas, prontamente aceito pelas amigas.

A festa correu animada, até que os moço da capital se foram novamente mais cedo entre sonoras gargalhadas.

Festa findando, perto da meia-noite, e mais uma vez Pórvinha oferece-se pra levar as meninas até em casa. Até pra redimir do papelão, Martinha e Delena deram uma chance pro Pórvinha e lá se foram na escuridão da estradinha, iluminada somente pela luz da lua e das estrelas.

Foram se achegando pra perto da porteira do Quilombo e o coração do Pórvinha começou a bater mais forte...e não é que mais uma vez a cambada de fantasma apareceu!

Mas, desta vez a coisa foi diferente, seguindo logo atrás, “mocozados” entre a mata seguiam Biluba, Ticoco, Borjão, Sadu, Bicudo e o Bala na Aguia. Municiados de varas de marmelo, valentia e muita fé partiram pra peleja contra a turma do mal.

Baita quiproquó, tanta pernada, varada e safanão que a poeira até levantou. Acuada na surpresa a legião do Mal bateu em retirada e foi aí que Bilubá garrô um fantasma pelas calça que se rasgou deixando nas mãos do guerreiro do Bem um pedaço, a tal prova material da peleja. E foi isso que foi, acontecido.

Mesmo respeitando a valentia e credibilidade do Bilubá e sua turma, alguém em volta da fogueira desafiou:

— Ah é? Então, Bilubá, cadê a prova?

— Tá aqui! Disse Bilibá jogando um pedaço de pano como quem joga o zape no truco.

No tecido surrado e sujo estava escrito: BY LEVIS.

Não sei dos fantasmas, mas algum paulistano voltou pra capital com a calça rasgada.

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