‘Bem longe da mocidade...’

Por: Chiachiri Filho

Meu pai foi um dos fundadores do Clube da Saudade da Franca que teve como seu eterno e incomparável presidente o jornalista e radialista Octávio Cilurzo. Portanto, ainda adolescente, convivi com aquele grupo de saudosistas e seresteiros que se reuniam para cantar loas à Franca e rememorar o seu passado. Nas reuniões, sempre comandadas pelo mestre Octávio, além dos “comes e bebes”, havia muita evocação, muita música e poesia. Arnaldo Ricardo de Sousa dirigia o Conjunto Francano de Amadores, cujos acordes prolongavam-se pela madrugada. Uns declamavam suas poesias, outros proferiam seus discursos. Porém, era a música que mais sensibilizava e fazia correr lágrimas nos olhos daqueles “cinqüentões”.

Embora jovem, muito jovem, eu gostava daquelas reuniões, daquela confraternização, daquelas noites de saudade e de poesia. Gostava das valsas francanas, de todas as valsas. Contudo, uma delas, Terra dos meus sonhos, tocava fundo os corações dos compadres e das comadres do Clube da Saudade. Com a letra de Agnelo Morato e música de Diogo Garcia, Terra dos meus Sonhos acabou tornando-se o hino popular da Franca. Conheci e convivi com o Dr. Agnelo Morato, dentista de profissão e literato de vocação. Tenho dele muita saudade. Era um homem bom, caridoso, sensível, humano. Deixou para Franca muitas coisas boas, inclusive, uma família de músicos e poetas.

Todos os versos de Terra dos meus sonhos são lindos e evocativos. Todavia, há um que se revela muito comovente:

“E hoje, no fim da existência, bem longe da mocidade...”

Esse “bem longe da mocidade...” ouvido aos 17 ou 18 anos de idade, isto é, em pleno esplendor da juventude, tem um sentido, um sentido poético. Porém, ao ouvi-lo após os sessenta, ele se apresenta com toda dimensão humana da coisa vivida, sofrida, irreversível, irrecuperável. É a juventude que passou com todo seu encantamento. É a juventude que se distanciou no tempo e que não voltará mais, nunca mais. Dela, restam somente as lembranças e a saudade.

No ano passado, Jatir Costa e seus Seresteiros, estiveram no Museu Histórico para comemorar os 100 anos de nascimento do meu pai. Ao tocarem Terra dos meus sonhos, eu percebi claramente porque essa música faz vibrar intensamente o coração dos francanos. Com mais de sessenta anos e, por conseguinte, bem longe da mocidade, o nosso único consolo é chorar, chorar a mocidade tão distante, a cidade desfigurada, os amigos desaparecidos, os sonhos perdidos. Enfim, “ tão longe da mocidade “, restam-nos somente as lembranças e a saudade.

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