O fim da sociedade moderna

Por: José Borges da Silva

Ao longo da história sempre houve profetas predizendo catástrofes, dilúvios, pragas e, principalmente, o fim dos tempos. Modernamente há profecias feitas por experts de alguns ramos da ciência, da cultura e da arte, embora não faltem, ainda, videntes à moda antiga. Os astrônomos calculam que a Terra se extinguirá dentro de cinco bilhões de anos, quando o Sol deverá se expandir até engolir os planetas do seu sistema, para depois se reduzir a uma anã branca, uma estrela pequena praticamente sem luz. Escritores prevêem o fim do livro, fato que começamos a assistir, mais pela falta de leitura das atuais gerações do que pela presença dos textos eletrônicos. Dizem que o Chico Buarque previu o fim da canção para o início do século XXI. Interpelado por artistas atuais, porém, ele remendou a previsão. Mas, analisando bailes, shows ou a programação de algumas emissoras de FM por aí... Bem, as previsões dos videntes de hoje, mais cautelosas, após os recentes fiascos das previsões do fim do mundo, falam do fim da sociedade atual, com a sutil transferência dos maus elementos para dimensões mais sombrias do Universo. A Terra ficaria para as pessoas de bem. Particularmente gosto bastante desta profecia. E reconheço que essa opinião envolve boa dose de pretensão, porque supõe que eu também fique por aqui.

Mas, prever o fim da sociedade atual, diante da rápida demolição dos valores que lhe dão sustentação, sem que outros sejam alçados em seu lugar, se tornou prognóstico banal. Os indícios pululam. A morte brutal de um jovem na semana passada por outro de dezessete anos, para roubar um aparelho celular, é indício claro da banalização da vida. Mas chega a ser assustadora a discussão dos especialistas e autoridades sobre as medidas possíveis para evitar tais tragédias. Um promotor veio à TV sustentar a conhecida tese da diminuição da maioridade penal, por haver aumentado a criminalidade entre os menores. Logo um juiz refutou a idéia sob o argumento de que o sistema carcerário não sendo bom para criminosos mais velhos seria pior para os mais jovens. O Ministro da Justiça mostrou preocupação com o aumento da demanda por presídios. Um deputado disse ser contra a medida porque objetiva punir negros e pobres e aumenta a desigualdade social. Professores de Direito ensinaram que o cárcere é remédio que mata o doente. Criminalistas que a prisão não recupera. Com exceção do promotor, todos vêem os criminosos como vítimas. Uma pesquisa indicou que noventa e três por cento dos paulistanos querem redução da maioridade penal. Os especialistas disseram que o resultado da pesquisa é passional! Pode ser exagero, mas, se a eliminação de uma vida inocente não mais sensibiliza os nossos sábios, parece que a sociedade atual chegou ao fim.

Voltando às previsões dos videntes à antiga e que referi me serem simpáticas, diante desse quadro de desconfiança geral, imaginem se não seria o máximo acordar numa manhã qualquer e se deparar com a tevê transmitindo, ao vivo, com os comentários do Alexandre Garcia, Brasília em peso sendo transferida para o umbral... E com um séquito de especialistas junto.

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