Ai, palavras...

Por: Eny Miranda

Na região do cerrado goiano, o engenheiro e a médica seguiam de carro. Seu destino, o trabalho dele: a Usina Hidrelétrica de Corumbá, que ela visitaria pela primeira vez.

- Não se espante se passarmos por trechos com muitos borrachudos. Estão surgindo vários nesta região -verdadeira praga, observou o engenheiro.

- Borrachudos? - animou-se a médica - Isso talvez possa explicar a elevada incidência de pênfigo, registrada aqui. Sabia que inúmeros estudos vêm demonstrando a inter-relação do pênfigo com os borrachudos?

- Pênfigo?

- Sim, principalmente o foliáceo. Parece existir um vínculo entre o fogo selvagem e os borrachudos, isto é, a presença de um, ao que tudo indica, favorece o surgimento do outro.

- Fogo selvagem? Mas aqui estamos em região de cerrado... A vegetação é de pequeno porte. E com esse tempo... Não imaginei que fogo e borrachudo...

- Agora que enfrentamos o período das chuvas é época de os borrachudos eclodirem, sim, mesmo em região de cerrado. O fogo selvagem, este, pode surgir a qualquer tempo.

- Fogo e chuva para mim não combinam. O que sei é que esses borrachudos nos têm trazido muita preocupação e grandes prejuízos. E o seu combate vem exigindo de nós um trabalho hercúleo.

- Fico feliz por saber que vocês se preocupam em combater borrachudos. Prestam com isso um grande serviço à população local. São muitos os casos...

- Ora, esta é nossa obrigação. Veja só quantos, espalhados pela estrada. Um incômodo...

- Não vejo nada, retrucou a médica.

- Como não? O asfalto está repleto deles!

- Não sei como você pode enxergá-los neste asfalto escuro! Eu não consigo ver coisa nenhuma.

- E não sente essas trepidações? Acontecem quando o carro passa sobre eles.

- Nossa! Que exagero, o seu!! O carro trepida por passar sobre borrachudos?

- Claro! Eles fazem com que o asfalto se eleve, descole do chão. E com toda essa chuva, então, por baixo da manta asfáltica...

- Ai, meu Deus! Embora saiba que borrachudos aumentam na época chuvosa, pois gostam de umidade, nunca ouvira dizer que pudessem crescer sob o asfalto; muito menos a ponto de elevá-lo! Que exagero!!

- Vejo que você não entende nada de borrachudo. Este é exatamente o ponto onde ele aparece: sob o asfalto.

- Hum... Só se fosse na fase larvar... Mesmo assim... E vê-los a esta hora do dia? Geralmente são vistos -os completamente desenvolvidos -ao amanhecer, ou no lusco-fusco da tardezinha. De qualquer modo... Bem, então é melhor passar por aqui com as janelas do carro fechadas. Tenho medo de que entrem alguns e os levemos conosco para outras regiões. Sem contar que sou alérgica...

- Espere aí! A que borrachudos você se refere? Pergunta, perplexo, o engenheiro.

- Ora, aos simulídeos - aqueles mosquitinhos hematófagos, cuja picada pode causar tanto incômodo e mesmo transmitir doenças. Como disse, eles vêm sendo relacionados ao pênfigo foliáceo, uma bulose comumente chamada de fogo selvagem, retruca a médica.

- Mas não é deles que estou falando! Refiro-me à consistência elástica - como a da borracha - verificada no solo que suporta o asfalto, quando o preparo desse solo foi incorreto ou quando há nele infiltração de água das chuvas, propiciando a formação de verdadeiras bolhas, com descolamento e elevação da superfície asfáltica, o que, por analogia, chamamos “borrachudo”.

Risos soltos, alados, entrecortados pelas fortes sacudidelas do carro passando sobre as “preocupações” dos engenheiros, que não chegam a preocupar, mas que podem causar bastante incômodo também aos médicos.

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