Romance entrelaça política e erotismo

Por: Sônia Machiavelli

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Se para mover a trama no romance Tia Júlia e o Escrevinhador, resenhado nesta página há um mês, o ficcionista Mário Vargas Llosa lançou mão de suas emoções de adolescente apaixonado por uma mulher mais velha, em Travessuras da Menina Má age de forma diferente. Mesmo assim, Ricardo Somocurcio, o protagonista deste, como o Varguitas daquele, revela faces do escritor. E se contrariamente a Júlia, referência real, a Menina Má nunca ocupou espaços verdadeiros na vida do autor, isso não determina afastamento de sua vivência pessoal, pois “para escrever sobre uma relação sempre usaremos algo de nossa experiência.”

O enredo nos mostra em seu início o jovem Ricardo na Lima dos anos 50, quando conhece duas irmãs de vida misteriosa. Uma delas é a Menina Má do título, assim chamada na maior parte da narrativa, em poucos capítulos tendo seu nome, Lily, revelado. Apaixonado por ela, e perplexo diante de um fato constrangedor que a humilha numa festa de adolescentes, Ricardo vai reencontrá-la de forma sempre surpreendente em contextos muito complicados, durante as quatro décadas em que permanecerá na Europa trabalhando como tradutor.

Baseado em Paris, já nos anos 60, num apartamento mínimo na Rue Saint-Sulpice, será espectador de fatos políticos importantes que mudaram o funcionamento da sociedade. Com grande capacidade de informar provocando envolvimento, o narrador-personagem registra e avalia o Maio de 64 na França; a revolução musical, da moda e dos costumes na Inglaterra; a transição política na Espanha; a crescente ocidentalização do Japão; a utopia comunista e o modelo cubano; os avanços da guerrilha no Peru com o MIR- Movimento da Esquerda Revolucionária. Paralelamente, acompanha as transformações na literatura francesa com a morte de André Breton, François Mauriac, André Malraux, Albert Camus e o surgimento de “uma forma crítica cada vez mais acadêmica, retórica; de uma grande sofisticação, mas também de grande frivolidade, que afastou os leitores comuns.” Ele se refere a Jacques Derrida, Gilles Deleuze, Michel Foucault e outros intelectuais franceses ligados ao estruturalismo.

A se crer verdadeira a assertiva que coloca a literatura como descritiva daquilo que a filosofia conceitua, Travessuras da Menina Má revela em ações e atitudes a visão política, literária e jornalística de Vargas Llosa, através do protagonista, em muitos momentos porta-voz de seu conjunto de valores e ideais num mundo em flagrante transformação. Atravessando quatro décadas que foram decisivas para nos legar o mundo tal e qual o recebemos no final do século XX, Ricardo, tradutor da Unesco, cargo emblemático, chega ao fim da jornada de meio século transformado em ferrenho crítico da esquerda, depois de apoiar a luta armada de seu país, o Peru.

Se nessa linha de evolução o livro mostra um painel geopolítico, na outra, que segue imbricada, o que o leitor acompanha, talvez até com maior interesse, é o relacionamento amoroso do protagonista com a tal Menina Má, cuja capacidade de transformação só encontra similar nos camaleões. Aventureira, mentirosa, ardilosa, alpinista social, indiferente ao amor, sentimento que considera “uma breguice”, ela se conduz bem na vida sexual, pelo menos depois da primeira metade da história, carregada de cenas de alta frequência erótica. A relação amorosa tumultuada, dolorosa, frequentemente interrompida, enreda-se de tal forma em mil malabarismos que leva o leitor a tomar partido, torcendo mais contra a vilã, essa Menina Má, que a favor do protagonista, por ela adjetivado Bom Menino, nos piores momentos Coisinha-à-toa, num assomo de sarcasmo a que ele parece incapaz de reagir.

O final é surpreendente. Vai contra todas as previsões do leitor, já que “na vida raramente as coisas acontecem como planejamos.” Esta é uma tese acaciana, que o romantismo na literatura, mais que em qualquer outra manifestação estética, ignorou para construir enredos e impor finais felizes depois da superação de provas difíceis. Sob este ponto de vista, a narrativa, que no seu terço final parecia caminhar para um happy end, desejado por parte dos leitores e odiado por outros, acaba fixando um desfecho realista.

Uma boa palavra para definir Travessuras da Menina Má seria transformação. Transformação individual, causada pela paixão, sentimento desorganizador por excelência: a cada reaparição, a Menina Má impõe ao protagonista novo rumo em sua existência marcada pelo método. Transformação social, pois as sociedades humanas passaram por grandes mudanças nas últimas cinco décadas e as pessoas que a elas assistiram ou delas participaram provaram seu gosto de estranhamento, cujo travo ainda persiste. A vida, como processo, continua: work in progress, diria Caetano Veloso.

INTELECTUAL PROLÍFICO

Mário Vargas Llosa

Mário Vargas Llosa, Nobel de Literatura, autor do romance resenhado ao lado, foi o convidado de honra da edição 2013 do Ciclo de Conferências Fronteiras do Pensamento, promovido pelo jornal Folha de São Paulo. O evento teve início no dia 17 de abril e seu término está previsto para o dia 6 de novembro. A faceta de palestrante é mais uma desse intelectual prolífico que já publicou 18 romances, 5 peças de teatro, 14 ensaios e centenas de artigos para jornais espanhóis, peruanos e brasileiros.

Contrariamente a Philip Roth, o extraordinário ficcionista norte-americano que anunciou recentemente sua aposentadoria, Vargas-Llosa diz que não vai parar de escrever. Tendo completado há meses 50 anos da publicação de seu primeiro romance, A cidade e os cachorros, afirma que não sairá nunca da literatura: “A morte vai me encontrar escrevendo.” No momento termina o romance O herói discreto e conclui uma adaptação do clássico Decamerão para o teatro, espetáculo no qual vai participar também como ator. Comenta a respeito: “É uma experiência das mais divertidas a de, tendo passado a vida toda escrevendo ficção, me ver num palco, vivendo um personagem como ator.”

Versátil, vivaz, entusiasmado, defensor dos clássicos mas apreciador de séries de TV como Homeland e House of Cards, que avalia como continuadoras da tradição dos folhetins, ele cobra aos escritores contemporâneos maior participação nas questões sociais e políticas, que exercem impacto na vida de todos: “É importante que participem de alguma outra maneira, que não seja pela indiferença e pelo cinismo.” (SM)

Serviço
Título: Travessuras da Menina Má
Autor: Mário Vargas Llosa
Gênero: Romance
Editora: Alfaguara
Número de páginas: 301

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