Fritz, o alemão

Por: Chiachiri Filho

Frederico Hart nasceu em Hamburgo, Alemanha. Veio para o Brasil ainda no colo de sua mãe. Vieram para trabalhar na lavoura, nas ricas terras dos municípios de Orlândia e Morro Agudo. Passaram a residir na Fazenda Barreiro onde a plantação de café dominava a paisagem.

Nessa fazenda havia três colônias: a das Paineiras (a mais populosa), a do Botafogo ( que ficava mais acima ) e a do Sapo ( a menor delas ).

Nessas colônias, além dos brasileiros de vários cantos do país, viviam imigrantes e seus descendentes, como os Vasili, os Bérti, os Hart, os Ficha, os Borrego, os Vespucci e outros mais. Vasili morava bem junto do terreirão. Era maquinista, isto é, operava a máquina de beneficiar arroz e mais a oficina de ferreiro. Os Bérti, o Tim e o Mário eram parentes do antigo administrador da fazenda, o sr. Emiliano Bérti. Pedro Ficha, além de lavrador, era barbeiro. Giuseppe Vespucci, o Bepim, destacava-se pelo seu tamanho, força e cordialidade. Seu filho, o meu amigo Luisinho, acabou virando tratorista e morrendo ao manipular veneno que seria jogado nas plantações. José Borrego era hortelão.

A mistura racial era uma constante na fazenda. O compadre Repolho, por exemplo, negro retinto, casou-se com a comadre Paulina, alemã, que deu à luz crianças de narizes rasgados, beiços grossos, corpos fortes, saudáveis, com uma dentição perfeita e cabelo pixaim completamente loiro.

Fritz , como disse, era da família Hart. Tinha como irmãos o Guilherme e a Maria Lemoa. Guilherme casou-se com uma linda negrinha e teve vários filhos. Frederico e Maria Lemoa, por serem muito feios, permaneceram solteiros. Fritz era assim: alto, mãos e pés grandes, nariz enorme. Sua pele assemelhava-se a um presunto cru. Boca desdentada, trazia sempre na cabeça um chapéu de feltro com abas caídas e nos pés as famosas alpargatas Roda. Em suma, Fritz era feio, muito feio, “feio que dói”. Mas a sua feiúra desaparecia frente à sua bondade, à sua educação, à sua simpatia. Fritz era “pau para toda obra”: não reclamava, não se rebelava, não destratava ninguém. Era um homem de boa índole.

Frederico Hart veio para o Brasil antes da Segunda Guerra. Portanto, escapou das garras de Hitler e do nazismo. Porém, sucumbiu às inclemências dos trópicos e da “marvada” da cachaça.

Fritz acabou tornando-se um bóia-fria e morreu, segundo me contaram, em Morro Agudo, na Vila das Cabritas, onde morava a sua irmã.

Fritz, sem dúvida, era uma boa pessoa cuja vida passaria em total anonimato se eu não o relembrasse, com muita saudade, nesta crônica semanal.

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