Lições gratuitas

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Para quem não o conhece, informo, de pronto, que o Ronan é meu amigo e corretor, vale dizer, ganha a vida intermediando negócios. Assim, envolve-se na compra de imóveis, na venda de imóveis, orienta interessados na aquisição de bezerros, na alienação de bodes e cabritos. Nas suas idas e vindas, pelos quatro cantos, compra e vende angolas, galos de briga, filhotes de cachorro. Em síntese, o homem vem substituindo, sem qualquer prejuízo, o mascate da antiga valsinha de carnaval:


Rala, rala, rala
Coitado do Abdalla.
Sobe e desce morro,
Carregando a sua mala.


Dia desses, encontrei o meu amigo, conversando com um pipoqueiro ali na praça.

- Está comprando pipoca, ou está querendo mudar de atividade?

- Não é nada disso, não. Estava só especulando quanto vale o ponto. Vai que aparece alguém querendo se estabelecer...

Desejando encher o vazio da manhã, arrastei o homem até o Francafé, paguei-lhe um leite com café e um pão sem manteiga. Depois sentamo-nos num banco da Praça Barão, puxei conversa.

- Tem lido minhas crônicas?

- Não, não tenho não. Pra ler, eu tenho de levantar às cinco horas, porque depois das sete, o telefone não para. Não sobra tempo pra nada. Eu até queria estudar, fazer um curso que apareceu por aí, mas cadê tempo?

- Curso de quê?

- Ah, é um curso de três meses... ensina a gente a negociar as dívidas.

- Antes você precisa estudar outras coisas. Tenho prestado atenção na sua vida e percebi que você precisa aprender é organização. Precisa organizar sua vida. Se você quiser, vou dar uma explicação de graça pra você.

- Mas você sabe não é Português?

- Sei outras coisas também. Preste bastante atenção. A primeira coisa a fazer é organizar suas atividades. Faça assim: no primeiro dia útil do mês, você vende uma fazenda. No segundo dia, você vende um pequeno terreno na periferia. No terceiro dia, vende uma casa num bairro qualquer. No quarto dia útil, vende um apartamento no centro da cidade. No quinto dia útil, você vende um barracão lá no Distrito Industrial.

- Mas...

- Espere, não me interrompa. Você quer, ou não quer aprender?

- Quero, mas...

- Não tem mais, nem menos. Fique calado e preste atenção. A segunda semana, você tira só pra conversar com tudo que é gerente de banco. Fala que você quer aplicar sua comissão, anota as vantagens que cada um oferece. Aí, com calma, você compare as ofertas. Mas, faça assim: não acredite muito em milagre, não. Quando a esmola é demais, até o santo desconfia. Então, você que não tem nada de santo, desconfie muito. E, no fim, é bom você depositar suas economias num banco do governo.

- Mas, que economia...

- Espere, não corte o meu raciocínio. O banco do governo é mais seguro. Se acontecer alguma crise, o governo acha sempre um jeito de inventar um imposto e nunca quebra. Quem quebra é sempre o contribuinte.

- Mas...

- Já sei, já sei. Você quer saber o que fazer nas duas últimas semanas do mês.

- Não, não é isso. Você está esquecendo do mais importante. Pra quem é que eu vou...

- Deixe de ser mineiro, larga de pensar pequeno. Enquanto o dinheiro trabalha pra você se fica rendendo juro, pegue a mulher e vá viajar, vá conhecer este Brasil maravilhoso.

- Não, não é isso. É outra coisa. Quem vai comprar a fazenda, o apartamento, o barracão?

- Essa é boa. Agora você já está querendo demais. Afinal, o corretor aqui sou eu ou é você? Só faltava essa. Dou uma aula de graça e, ao invés de me agradecer, você quer que eu ainda faça seu trabalho? Está querendo que eu saia por aí vendendo imóvel? Isso é demais. Desculpe, mas estou indo.

Deixei o Ronan de boca aberta e olhos arregalados, fui-me embora, Em casa, fiquei matutando.

- Como é que pode... Eu perco o meu tempo, ensino o caminho das pedras pro indivíduo e... É, é sempre assim: a gente dá o pé, a pessoa quer as duas mãos... Assim não dá...

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