A chuva

Por: José Borges da Silva

Em uma das últimas noites do verão que acaba de passar, acordei na madrugada e fiquei a apreciar a chuva mansa que caía sobre as folha das árvores do quintal de casa. Uma sensação ambígua, de prazer e melancolia me acorreu, talvez porque uma idéia não muito explícita me incomoda há algum tempo: a de que esse fenômeno natural de fundamental importância para a vida na Terra vai se acabar em um tempo não muito distante. Sempre me lembro das Olimpíadas de Pequim, em que foi utilizado um processo de bombardeamento químico das nuvens para controlar as precipitações durante algumas competições em estádios abertos e nas cerimônias de abertura e de encerramento dos jogos. Não há dúvidas de que o homem pretende controlar o clima. Na sua longa trajetória sobre a Terra o homo sapiens vem lutando contra o meio ambiente, que no início lhe era extremamente hostil. Nas cavernas, nas savanas e nas florestas, estava de igual para igual com as feras, com os insetos e com os microorganismos, em um estado de equilíbrio que segundos os historiadores durou quase 200 mil anos. A fome era o seu maior adversário. Mas, inventou a agricultura e passou a ter tempo para outras invenções. Construiu abrigos, dominou os adversários e o meio ambiente. Hoje já não sofre com as intempéries, senão nos casos de descuido de famílias e dos governos. E já parte para dominar o clima. Não sei se é por saudosismo ou por aquela desconfiança que dizem ser natural dos mineiros, mas não gosto muito de imaginar que um dia os elementos que propiciam a vida na Terra estarão nas mãos do homem, e que caberá a ele decidir se e onde haverá precipitações, que provavelmente nem chamará de chuva.

Acho que é por isso que ando tirando algum tempo para apreciar a chuva que tem caído com regularidade neste início de outono na Região Sudeste do Brasil.

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