Vis à vis

Por: Heloísa Bittar Gimenes

Quem não compreende um olhar, tampouco compreenderá uma longa explicação.
Mário Quintana

Fui buscar olhares para compreender o mundo. E são muitos hein?! Relato aqui alguns que marcaram e outros que ainda marcam minha vida.

Minha vó Lydia tinha um olhar silencioso, de sabedoria; olhar de aceitação, de resignação. Hoje quando fecho os meus olhos, recontextualizo aquilo que vi nos olhos dela, me assereno por isso. O olhar de minha vó Cléria era lindo, azul, transmitia amor e afeição; olhar este que o tempo se encarregou de levar para o Céu antes dela, de tão belo que era; aí ela aprendeu a ver com olhos da alma somente. Minha mãe tem o olhar de perdão, de misericórdia; às vezes dá até culpa a forma com que somos olhados por ela, pois por mais que se faça, ela nos absolve amorosamente nos olhando. Meu pai tem um olhar terno, lindo, azul e saudoso, que denuncia que a melhor parte da vida (vida bem vivida) está em algum tempo atrás. Minha filha Ana Beatriz teve um olhar de vida curta, vida que deveria ser vivida com intensidade; um olhar que sempre mirou o infinito; e acredito que o olhar dela hoje seja de expansão de vida a ser seguida em outro plano. O da minha Juju é um olhar de menina-moça, que ainda me busca para referenciá-la no caminho da vida. Do Paulo, meu esposo, é um olhar de companheiro, de poeta, de escritor; é um olhar que relata o que ele está pensando. Continuando na família, o olhar da tia Samira é afetuoso mas também paralisante; eu e minha prima Mirinha compreendemos isso, rsrs. O do tio Moura é um olhar doce, meigo, que contradiz com o que imagino ser um olhar de delegado. O da tia Mísia é e sempre foi o olhar médico, que sabe o que a gente tem, é despachado. O da tia Manira sempre me pareceu um olhar de brilho, mas de uma vida pouco vivida, um olhar que quase não nasceu. Do tio Manir era olhar “bulldogão” de pálpebras caídas, que localizava que ali estava um sobrinho, mas não tinha idéia de qual era. O do tio Nazir era um olhar musical, amoroso, que via beleza onde poucos enxergavam, que mirava os detalhes. Do tio Valdir é um olhar sorrateiro, de menino, que vê além da cena, mas que tem por princípio que o olho vê, a boca não conta...e quando conta, ai, ai, ai, é perspiscaz. O da tia Gaudete é um olhar intelectualizado que aponta outras fronteiras. O da tia Lúcia eu não tenho muita referência, apesar de querida; mas posso calcular que o olhar dela enxerga muito além do que o meu.

O olhar do Rafael, meu irmão mais velho, sempre foi de inocência e braveza, olhar de irmão mais velho mesmo; do Fausto, meu irmão do meio, foi um olhar de: qual será a próxima arte? Mas hoje, com a chegada da maturidade, é um olhar que traduz medo.

Agora chegou a vez do meu olhar... Meu olhar já foi mais romântico, olhava para as nuvens e via carneirinhos. Aí a vida trouxe formatos bem mais pontiagudos e precisei ver o que não imaginei. Porém, parto do pressuposto de que se meus olhos ainda abrem, é porque preciso aprender a ver para além do horizonte. Meu olhar é de fé num mundo muito maior.

Dizem que o olhar é a janela da alma. Acho que concordo. Assim eu vejo minha família, assim eu compreendo a vida; assim é minha simples explicação de cada um de muitos que passam e passaram por mim. Nenhum olhar foi indiferente. Essa é a minha percepção vis à vis. E a sua, qual é?

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