Todos somos reféns de nossas escolhas

Por: Sônia Machiavelli

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O escritor Luiz Cruz de Oliveira nos contou em crônica publicada neste caderno no dia 20 uma história interessante sobre seu mais recente livro, em parceria com Regina Bastianini e Marco Antônio Soares. Disse que trabalhava nos originais e já andava pela metade quando os perdeu. Cruz ficou a ver navios, pois havia datilografado as páginas quando apenas ensaiava a convivência com o computador, esta máquina que nos traz muita segurança ao salvar nossos arquivos. Enfim, foi-se o trabalho de meses e restou aquela sensação de frustração, de vazio, de coisa irrecuperável que só conhece bem quem lida com as palavras e sabe que sua organização na folha ou na tela tem a ver com condições emocionais específicas, mesmo quando o gênero é meramente informativo.

Mas, como a vida é dinâmica e as coisas perdidas, mesmo sem intercessão de Santo Antônio, o padroeiro dessas causas, costumam voltar aos seus legítimos donos, já decorridos muitos anos as cópias do que fora desviado de seu curso natural retornaram às mãos do autor. O destino dança música que não ouvimos e a esse movimento costumamos chamar de ironia. Imagino a emoção de Cruz reconhecendo o texto perdido. Eu, que vinha hesitando em escrever a resenha do filme As Palavras, de Brian Klugman e Lee Sternthal, ao ler os comentários de meu amigo e ver um ponto mínimo de convergência das duas histórias me resolvi de vez. Acredito que coincidências são, no mínimo, sinalizações de sincronicidades. Costumo obedecer ao que elas pontuam silenciosamente. Vamos ao filme.

A história começa com um escritor renomado, Clay Hammond (Dennis Quaid), fazendo leitura pública de trechos de seu último livro, que tem como herói jovem escritor sem dinheiro, Rory Jansen (Bradley Cooper), em crise de criação. Rory encontra numa antiga pasta de couro, comprada numa loja de antiguidades, os originais datilografados e anônimos de um romance escrito décadas atrás, que tem como protagonista um soldado (Ben Barnes) francês no Pós-Guerra. Depois de alguma relutância, Rory assume como seu o velho manuscrito e o digita no seu computador. Inteirinho, ipsis litteris. O livro é publicado e a crítica aliada ao público transforma o jovem numa celebridade. Tudo caminha maravilhosamente, até que numa noite, ao sair de uma livraria, Rory é abordado pelo verdadeiro autor do romance, o Velho ( Jeremy Irons), que vai colocar em xeque a questão do plágio.

Não é um enredo original, vários outros filmes já trataram deste tema; um deles, Sem Limites, com o mesmo Cooper no papel principal. Mas é a estrutura que sustenta As palavras o grande trunfo dos diretores, além, claro, do desempenho dos atores, com reverência para Irons, em poucas e extraordinárias cenas.

Temos no filme uma história dentro de outra dentro de outra; um livro dentro de outro dentro de outro. A estrutura lembra as bonequinhas russas chamadas matrioscas. E se Jansen e o Velho são personagens de Hammond, este deixa de ser autor ao se transformar em personagem diante do olhar de Daniella( Olívia Wilde), a estudante de letras que o confronta no final. É ela quem descobre que seu livro, na verdade, é autobiográfico: Rory apenas traduz (ou espelha) a experiência de Hammond. Então, é como se fôssemos instados a pensar que para o escritor, aquele que tem nas palavras o material para erguer mundos, realidade e ficção não ocupam territórios definidos, não têm fronteiras solidamente demarcadas, não se opõem ou se justapõem; antes, imbricam-se e se sobrepõem.

A flutuação do tempo em presente/ passado recente/ passado remoto confere movimento interessante ao filme, convocando o espectador a atentar para planos e sequências. A trilha sonora de Marcelo Zarvos, compositor brasileiro, é imponente e reforça a inarredável sensação de angústia que não se desfaz em momento algum. Nem mesmo no final instigante, que não parece encerramento e sim início de nova sequência que caberá ao espectador criar, como se fosse co-autor. Os personagens-escritores se vinculam em níveis variáveis de profundidade a suas companheiras, que ora os inspiram, ora os exaperam; ora os intimidam, ora os esperançam. Por elas e para elas é que parecem escrever, embora permaneça um vislumbre de que a paixão pelas palavras, pela criação literária, pela ficção seja maior que o sentimento que destinam àquelas com quem decidiram partilhar suas vidas.

Quanto ao preço da farsa, só mesmo assistindo ao filme para concluir que foi alto. Fazemos escolhas, temos de conviver com o que advém delas, isso é inarredável. Todas as histórias que se interligam em As Palavras ilustram essa verdade em imagens belas, diálogos profundos e enredo aliciante. O filme é ótimo, provocativo. Mas porque leva à reflexão sobre a ética, entrou e saiu de cartaz num triz. Na sociedade das superficialidades, pensar pode fazer faz mal à saúde.


OVERDOSE DE COINCIDÊNCIAS

Klugman & Sternthal

As Palavras, lançado no final de 2012, despertou na Suíça alguns questionamentos sobre autoria. Não exatamente dentro da obra da arte, onde o tema é evidente e sustenta a trama. Mas fora dela, numa coincidência que não ficou por completo esclarecida e tingiu com certa ironia o lançamento do filme. Acontece que o diretor/roteirista alemão Martin Suter assinou um filme chamado Lila, Lila, sobre um jovem escritor que descobre um manuscrito e o faz passar por seu, apoiado pela namorada. Depois, quando o verdadeiro autor aparece, o plagiador escreve novo livro, contando como tudo havia acontecido. Qualquer semelhança será mera coincidência?

Klugman e Sternthal respondem que sim. Refutaram as acusações que apareceram em alguns jornais suíços. Disseram nada saber de Suter, muito menos de Lila, Lila. E parece que provaram: o roteiro de As Palavras foi inscrito no Sundace Festival em 2000, então, obviamente, escrito antes disso. Lila, Lila foi tornado público em 2009.

À parte esses fatos, a dupla Klugman e Sternthal mostra direção firme, enérgica, sensível e coerente. São dois jovens diretores norte-americanos às vésperas de completar 40 anos, que tendo atuado como atores demonstram sensibilidade para acertar o tom dramático do filme, que mobiliza o espectador sem jamais recair no pieguismo ou na moralidade. “A vida é imprevisível”, eles parecem nos dizer com sua história muito bem construída.

Serviço
Título: As Palavras
Gênero: Drama
Direção e roteiro: Brian Klugman, Lee Sternthal
Elenco: Bradley Cooper, Jeremy Irons, Zoe Saldana, Ben Barnes, Nora Arnezeder, Dennis Quaid, Olívia Wilde, John Hannah
Onde: Nas locadoras

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